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SOCIEDADE Publicado em 25/09/2026 às 10:09 26 visualizações

LUANDA ENTRE O LIXO E O MAU CHEIRO: QUEM ESTÁ A SUJAR A CIDADE?

Entre vendedores ambulantes, homens que transformam passeios em urinóis a céu aberto e a ausência de sanitários públicos, Luanda enfrenta uma batalha diária contra o mau cheiro. Nas ruas, a culpa é disputada entre homens e mulheres, mas por detrás do odor que invade becos, paragens e passeios existe um problema maior: uma cidade que cresceu mais depressa do que a capacidade de responder às necessidades básicas dos seus habitantes.

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LUANDA ENTRE O LIXO E O MAU CHEIRO: QUEM ESTÁ A SUJAR A CIDADE?
Imagem: DR Ponto de Situação

Em quase todos os cantos de Luanda há um cheiro que dispensa apresentação.

Não é preciso perguntar onde está. Ele chega antes. Espalha-se pelas esquinas, acompanha quem atravessa uma paragem, invade alguns mercados, sobe pelas paredes e permanece nos passeios onde milhares de pessoas passam diariamente.

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É o cheiro da urina, do lixo acumulado, dos resíduos deixados nas ruas e, em alguns pontos da cidade, da combinação de tudo isso.

Luanda, a metrópole que concentra pessoas vindas de diferentes pontos de Angola e de vários países, transformou-se num espaço urbano onde hábitos, costumes e formas distintas de utilização da rua se cruzam diariamente.  

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Segundo os dados apresentados ao Portal de Notícias Ponto de Situação, 63% dos habitantes da cidade seriam oriundos de outras províncias, 17% estrangeiros e apenas 20% luandenses. A informação, contudo, carece de enquadramento quanto à metodologia e à fonte original, não devendo ser confundida com uma estatística oficial sem a devida confirmação. O que é visível, entretanto, não precisa de estatística para ser percebido.

Basta caminhar.

Lixo no chão. Sacos plásticos abandonados. Restos de comida. Urina nas paredes. Passeios utilizados como casas de banho improvisadas. E, em determinados locais, uma pergunta que se tornou recorrente entre os habitantes: quem está a contribuir mais para transformar Luanda numa cidade malcheirosa?

O Ponto de Situação saiu às ruas para ouvir os luandenses.

E as respostas estão longe de ser consensuais.

Mulheres na mira

Para Laura Baptista, 31 anos, moradora do Bairro São Paulo, as mulheres que vendem nas ruas, sobretudo as vendedeiras ambulantes e as que comercializam produtos junto das paragens, têm uma responsabilidade considerável na degradação de alguns espaços.

“Se olharmos bem, onde existem senhoras a vender encontramos também um amontoado de lixo”, afirmou.

Laura chama igualmente a atenção para uma realidade menos visível: a ausência de instalações sanitárias adequadas para quem passa longas horas a trabalhar na rua.   Segundo a moradora, algumas vendedeiras recorrem a recipientes improvisados para satisfazer necessidades fisiológicas durante o período de trabalho.

“Por detrás de uma bancada há sempre um balde ou garrafas plásticas onde algumas fazem as suas necessidades fisiológicas”, relatou.

A observação levanta uma questão que ultrapassa o comportamento individual: o que acontece quando uma pessoa trabalha durante horas num espaço público onde não existe uma casa de banho acessível?

“Os homens transformaram os passeios em casas de banho”

Paula Ramalhoso, 29 anos, moradora do Bairro Operário, apresenta uma leitura diferente.

Para ela, os homens são os principais responsáveis pelo mau cheiro provocado pela urina nas ruas de Luanda.

“Todas ou quase todas as pedonais de Luanda são uma casa de banho masculina. Os homens fazem destes lugares um autêntico vale de mau cheiro”, afirmou.

A crítica é dirigida, sobretudo, aos homens que, mesmo diante de outras pessoas, utilizam muros, passeios, becos e esquinas como urinóis improvisados.

Em vários pontos da cidade, a cena tornou-se banal.

Um homem aproxima-se de uma parede, olha para os lados e, em poucos segundos, deixa no chão aquilo que deveria ser encaminhado para uma instalação sanitária.

A repetição diária deste comportamento transforma paredes e passeios em focos permanentes de odor e degradação.

Mas, para alguns moradores, responsabilizar apenas quem urina na rua é olhar para o problema pela metade.

“A culpa também é de quem pode resolver e não resolve”  

Patrício Santana desloca o debate para outro nível. Para o morador, se Luanda cheira mal, a responsabilidade não deve recair exclusivamente sobre homens ou mulheres.

“As administrações e o Governo podem colocar balneários públicos nas principais avenidas de Luanda, mas não o fazem”, defendeu.

Patrício reconhece que urinar na rua é uma prática que contribui para a degradação do espaço urbano, mas considera que a inexistência de sanitários públicos também deve fazer parte da discussão.

E apresenta uma questão simples:

Se uma pessoa precisa de utilizar uma casa de banho e não encontra nenhuma, para onde deve ir?

A pergunta parece banal, mas expõe uma das contradições da vida urbana.

Milhares de pessoas passam diariamente horas nas ruas de Luanda. Vendedores, taxistas, trabalhadores, estudantes, turistas, agentes da polícia, funcionários públicos e cidadãos que se deslocam entre diferentes pontos da cidade.

Todos têm necessidades fisiológicas.

Mas a cidade nem sempre oferece condições para que essas necessidades sejam satisfeitas de forma digna.

Entre a necessidade e a falta de opção  

Patrício vai mais longe e alerta para os riscos de permanecer demasiado tempo sem urinar.

Embora a frequência adequada varie de pessoa para pessoa e dependa, entre outros factores, da ingestão de líquidos e de condições de saúde, adiar repetidamente a micção não é uma estratégia saudável. Em determinadas circunstâncias, pode favorecer problemas urinários, sobretudo em pessoas susceptíveis.

Mas é precisamente aqui que o problema urbano se torna mais complexo.

“Não posso guardar a urina por muito tempo para não contrair uma infecção urinária. Solução: mijar no canto ou na primeira esquina que encontrar”, ironizou Patrício.

A frase, embora provocadora, resume o dilema de muitos cidadãos: entre a necessidade fisiológica e a inexistência de condições, alguns acabam por escolher a rua.

Isso, contudo, não transforma a urina na via pública numa prática aceitável.

A ausência de sanitários pode ajudar a explicar determinados comportamentos, mas não elimina a responsabilidade individual de preservar o espaço público.

Multa para quem urina na rua?

Dona Lulu concorda com os moradores que apontam os homens como os principais responsáveis pela urina nas ruas, mas defende uma resposta mais dura das autoridades.

Para ela, quem for apanhado a urinar na via pública deveria ser sancionado.

“Quem for urinar na rua deve ser multado em cinco mil kwanzas. Vais ver que Luanda terá um cheiro agradável”, defendeu.

Na sua perspectiva, a penalização financeira poderia funcionar como mecanismo de dissuasão.

“Quando as pessoas sabem que vão gastar dinheiro por uma coisa de que não vão beneficiar, pensam duas vezes”, argumentou.

A proposta, porém, levanta outra questão: pode uma multa resolver um problema que também tem raízes na falta de infra-estruturas?

Uma política de fiscalização sem oferta suficiente de sanitários públicos poderá punir o comportamento sem resolver integralmente a causa que contribui para ele.

“São as mulheres quem mais sujam Luanda”   

Se alguns homens são apontados como responsáveis pela urina nas ruas, há também quem responsabilize as mulheres pela acumulação de lixo.

A senhora Gouveia Neto foi categórica:

“São as mulheres quem mais sujam Luanda”.

Raúl Pinto apresenta uma explicação para esta percepção.

Segundo ele, as mulheres acabam por ser mais visíveis em determinadas actividades comerciais realizadas nas ruas e nas paragens, razão pela qual também podem estar mais associadas à produção de resíduos nesses espaços.

A discussão, entretanto, não deveria transformar-se numa guerra entre homens e mulheres. Porque o lixo não tem sexo.

O mau cheiro não tem género.

E uma cidade degradada não pergunta quem deixou o plástico, quem atirou a garrafa, quem despejou os restos de comida ou quem urinou junto ao muro.

O problema permanece.

Uma cidade que cresceu, mas que ainda precisa de mais infra-estruturas

Luanda cresceu de forma acelerada.

Com o crescimento vieram novos bairros, novos mercados, novas paragens, maior circulação de pessoas e uma pressão crescente sobre os serviços urbanos.

Mas uma cidade não se constrói apenas com estradas, edifícios e avenidas, também se constrói com casas de banho públicas, com sistemas eficientes de recolha de lixo, com educação ambiental, com fiscalização, com saneamento, com recipientes adequados para deposição de resíduos e sobretudo com cidadãos conscientes de que a rua não é extensão da sua casa de banho nem depósito do lixo doméstico.

O mau cheiro que se sente em vários pontos de Luanda é, por isso, mais do que um problema de odor.

É um sinal.

Um sinal de que existe uma relação ainda frágil entre o cidadão, o espaço público e as estruturas responsáveis pela sua manutenção.

Quem é, afinal, o culpado?

A reportagem encontrou respostas diferentes.

Para Laura Baptista, as vendedeiras têm uma grande responsabilidade.

Paula Ramalhoso aponta os homens que urinam nas ruas.

Patrício Santana responsabiliza também as autoridades pela falta de sanitários públicos.

Dona Lulu defende multas.

Gouveia Neto aponta as mulheres como principais responsáveis pela sujidade.

Raúl Pinto relaciona a presença feminina nas actividades comerciais de rua com a produção de resíduos.

Cada voz encontrou um culpado.

Mas talvez a pergunta precise de ser reformulada.

Em vez de perguntar apenas “quem suja Luanda”, talvez seja necessário perguntar:

“Que cidade estamos a construir quando obrigamos milhares de pessoas a passar horas nas ruas sem acesso a condições sanitárias dignas e, ao mesmo tempo, permitirmos que o espaço público seja tratado como se não pertencesse a ninguém?”

A resposta não está apenas nos homens.

Não está apenas nas mulheres.

Não está apenas nas vendedoras ambulantes.

E também não está exclusivamente nas administrações.

Está numa combinação de comportamentos, ausência de infra-estruturas, fiscalização insuficiente, educação ambiental deficiente e uma cultura de pouca responsabilidade sobre aquilo que é de todos.

Enquanto um cidadão continuar a atirar lixo para o chão, a cidade continuará suja.

Enquanto alguns homens e mulheres continuarem a utilizar esquinas e paredes como casas de banho, o mau cheiro continuará.

Enquanto houver trabalhadores e transeuntes sem acesso a instalações sanitárias públicas, a pressão sobre os espaços urbanos permanecerá.

E enquanto as autoridades não conseguirem responder adequadamente às necessidades de uma população cada vez maior, a cidade continuará a pagar o preço.

Luanda não precisa apenas de novas avenidas.

Precisa de condições para que quem percorre as suas avenidas possa viver nelas com dignidade.

Porque uma cidade verdadeiramente moderna não é aquela que apenas cresce para cima.

É aquela que consegue garantir que, no chão onde os seus cidadãos caminham, haja limpeza, saneamento, dignidade e respeito pelo próximo.

E talvez seja por isso que, quando Luanda cheira mal, a pergunta mais importante não seja saber quem é o culpado.

Talvez seja saber quem vai assumir a responsabilidade de fazer a cidade voltar a respirar.

 

Redacção
Redacção

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