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PONTO SOCIAL Publicado em 02/07/2026 às 18:08 28 visualizações

ENSINO PRIVADO: HÁ PROFESSORES A GANHAR ENTRE 15 E 35 MIL KWANZAS

O ensino privado nos bairros de Luanda continua a ser marcado por salários reduzidos, limitações estruturais e um debate crescente sobre a sustentabilidade do sector, entre a sobrevivência dos docentes e a realidade económica das instituições.

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ENSINO PRIVADO: HÁ PROFESSORES A GANHAR ENTRE 15 E 35 MIL KWANZAS
Imagem: Osmar Edgar/Novo Jornal

Em entrevista ao Portal Ponto de Situação, o professor António Clemente considera que a realidade vivida pelos docentes que leccionam em escolas privadas dos bairros é "caótica", levando muitos a recorrer a actividades informais e até aos chamados "jogos da sorte" para complementar o rendimento.

Professor desde 2010, António Clemente descreve o quotidiano dos educadores como uma "realidade de miséria" e sublinha que a precariedade ultrapassa a simples questão salarial.

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Ao longo da entrevista, esclareceu que, ao contrário da percepção generalizada, os salários no ensino privado dos bairros estão longe de corresponder às exigências da profissão. Segundo o profissional, muitos docentes recebem valores considerados baixos, insuficientes para garantir uma vida digna.

Dados preliminares de uma pesquisa em curso realizada pela Associação Nacional de Apoio à Voz do Professor (ANAVP), que conta actualmente com mais de 450 associados,  indicam que há professores licenciados no sector privado a auferirem cerca de 25 mil kwanzas por mês, valor igualmente considerado insuficiente para o sustento familiar.

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"A valorização do professor deve ser uma prioridade nacional, porque investir no professor é investir no futuro de Angola", defendeu recentemente, em declarações ao Portal Ponto de Situação, o presidente da ANAVP, Queca Canzonji.

Segundo o docente Queca Canzonji, há colegas seus,  que nem sequer possuem smartphone, o que limita o acesso à informação, à actualização profissional e às ferramentas tecnológicas cada vez mais necessárias ao processo de ensino e aprendizagem.

"É uma realidade caótica, quase sem futuro. Há professores que trabalham por salários miseráveis, sem condições de trabalho e que ainda passam dois meses de férias sem qualquer remuneração", lamentou António Clemente.

"Camisola, sem valores não existe", declarou o professor, que rejeita a ideia de que o amor pela profissão deva sobrepor-se à necessidade de uma remuneração condigna.

Perante este cenário, o docente acredita que a qualidade do ensino em Angola está seriamente ameaçada, por isso, defende uma intervenção urgente para reverter a situação.

Para conseguir um rendimento que permita sustentar a família, muitos professores são obrigados a leccionar em quatro, cinco ou até seis escolas diferentes.

"Como é possível garantir qualidade quando o professor chega cansado à sala de aula, depois de passar por várias escolas? Ainda leva pilhas de provas para corrigir ", questionou, que já assiste ao abandono da profissão por vários colegas devido à falta de valorização.

Na sua opinião, este ciclo compromete directamente o acompanhamento dos alunos e a qualidade do processo de ensino e aprendizagem.

Professores entre a sala de aula e a sobrevivência

Outro aspecto destacado por António Clemente prende-se com o recurso crescente dos professores a actividades paralelas para garantir a subsistência.

Enquanto alguns acumulam funções em várias escolas, outros recorrem a actividade de mototáxi, ao carregamento de blocos, ao comércio informal e até aos chamados "jogos da sorte", vulgarmente conhecidos como "bater ficha".

"Não é porque querem. É porque não há alternativas. O salário não responde às necessidades básicas", frisou.

A visão da gestão escolar

Contactado pelo Portal Ponto de Situação, o Director-Geral de uma instituição de ensino privado em Luanda, António Domingos, reconheceu que existe uma margem limitada para o aumento dos salários dos professores, devido à realidade económica das escolas e ao valor das propinas praticadas.

"É uma realidade que, de certo modo, ainda há que se melhorar muito, olhando na questão salarial e também nas condições que as mesmas instituições têm vindo a apresentar, do ponto de vista estrutural, organizacional e do pessoal que ali trabalha", afirmou.

A fonte avançou que actualmente o salário tende a variar entre os 15, 20, 30, no máximo até 35 mil kwanzas. Tudo porque o nível da propina não está elevado como noutras zonas,  dependendo do nível de ensino e da organização de cada instituição.

Questionado sobre a possibilidade de aumentos mais significativos, o responsável admitiu que tal cenário dependeria directamente da capacidade financeira das famílias, uma vez que muitas escolas dependem exclusivamente das propinas dos alunos.

"Somos educação comercial. O bolso conta muito. Um encarregado que paga 1.500 kwanzas por um educando, como é que se eleva o salário sem afectar esse equilíbrio?", questionou.

Parceria entre Estado e privado como alternativa

O director defende ainda que uma maior articulação entre o Estado e as instituições privadas poderia contribuir para a melhoria do sector, através de modelos de ensino partilhado.

"Se houver mais escolas comparticipadas, uma parte ficaria sob responsabilidade do Estado e outra da instituição. Isso aliviaria a pressão sobre as direcções", propôs.

Recordar que, o salário mínimo nacional está fixado em 100 mil kwanzas para as médias e grandes empresas, enquanto que 50 mil kwanzas destina-se para microempresas, e empresas iniciantes (Startups), e trabalhadores domésticos, conforme estabelecido pelo Decreto Presidencial n.º 152/24.

SAIBA TAMBÉM: VALORIZAÇÃO DOS PROFESSORES CONTINUA A SER UM DOS MAIORES DESAFIOS DA EDUCAÇÃO EM ANGOLA

Redacção
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