Este episódio fez-me recordar outro caso igualmente reprovável, que testemunhei num táxi, quando um cobrador decidiu assistir a um vídeo pornográfico numa paragem e, posteriormente, no interior da viatura, como se estivesse perante um conteúdo perfeitamente normal para aquele ambiente.
Tudo aconteceu em plena jornada laboral. Apesar das chamadas de atenção dos passageiros, o homem mostrou-se revoltado e chegou a afirmar que ninguém deveria interferir naquilo que estava a fazer.
Recordo-me ainda de outro indivíduo que circulava pela via pública enquanto assistia a um vídeo de conteúdo sexual explícito, com o volume suficientemente alto para chamar a atenção de quem passava.
São episódios desta natureza que não devemos normalizar.
Desde que tive contacto com estes cenários, comecei a questionar-me: onde estarão a falhar as famílias e a sociedade em geral? Como é que alguém chega ao ponto de considerar normal expor comportamentos ou conteúdos de natureza sexual em espaços públicos?
São várias as perguntas que me passam pela cabeça, e as consequências desta realidade não devem ser ignoradas, tanto para os próprios indivíduos como para a sociedade.
Quando comportamentos desta natureza são praticados diante de outras pessoas, incluindo crianças e adolescentes, existe o risco de expô-los prematuramente a conteúdos e comportamentos para os quais não estão preparados. Se situações assim forem repetidas sem qualquer reprovação, podemos contribuir para a perigosa ideia de que tudo é permitido e de que os limites sociais deixaram de existir.
É preciso, por isso, distinguir liberdade de falta de limites.
A sexualidade faz parte da vida humana, mas não significa que todos os comportamentos de natureza sexual possam ser praticados em qualquer lugar, diante de qualquer pessoa e sem consideração pelas normas de convivência social.
Uma pessoa deve saber controlar os seus impulsos e compreender que o espaço público pertence a todos.
A exposição de comportamentos sexuais explícitos pode causar constrangimento, perturbar outras pessoas e, em determinadas circunstâncias, constituir uma violação das normas legais e sociais. Não podemos simplesmente assistir a estes episódios, filmá-los, partilhá-los nas redes sociais e depois seguir a nossa vida como se nada tivesse acontecido.
A questão é mais complexa. Porém, quando alguém transporta esse comportamento para a via pública, ignorando deliberadamente a presença e o direito dos outros ao respeito e à tranquilidade, estamos perante uma situação que merece atenção e responsabilização.
É igualmente necessário discutir a educação sexual.
Este debate não deve ficar restrito às redes sociais, nem surgir apenas quando acontece um escândalo; deve começar nas famílias, continuar nas escolas, ser abordado pelas instituições religiosas e integrar os espaços onde se forma o carácter dos cidadãos.
Educação sexual não significa incentivar comportamentos sexuais, significa também ensinar respeito pelo próprio corpo, respeito pelo corpo do outro, consentimento, privacidade, responsabilidade e limites.
Uma criança deve aprender que nem tudo aquilo que vê na Internet deve ser reproduzido. Um adolescente deve compreender que conteúdos destinados ao consumo privado não devem ser levados para o espaço público e um adulto deve ter maturidade suficiente para compreender que a sua liberdade termina onde começa o direito do outro.
Vivemos numa época em que um telemóvel coloca praticamente todo o tipo de conteúdo à distância de alguns segundos. A tecnologia avançou rapidamente, mas a educação e a responsabilidade precisam de acompanhar esse avanço.
Não podemos construir uma sociedade onde tudo é relativizado em nome da modernidade.
Há comportamentos que precisam de ser condenados. Há limites que precisam de ser respeitados, e há responsabilidades que não podem ser transferidas para a sociedade.
Precisamos de reflectir sobre o caminho que pretendemos seguir.
Se queremos uma sociedade mais equilibrada, devemos começar por ensinar, dentro de casa e fora dela, que liberdade não é fazer tudo o que nos apetece: é saber escolher, saber respeitar e, sobretudo, saber onde parar.
A educação sexual deve ser um assunto do quotidiano das famílias e da sociedade, porque ensinar limites também é ensinar cidadania.
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