Durante cerca de duas horas de debate, dividido em três blocos, os candidatos trocaram acusações e procuraram fragilizar a imagem política um do outro, deixando pouco espaço para a apresentação de propostas concretas.
Um dos momentos mais tensos ocorreu quando Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir as respectivas contas bancárias e o sigilo telefónico, de modo a permitir que os eleitores avaliassem os patrimónios dos concorrentes. “Não tenho nada a esconder”, respondeu o senador do Partido Liberal (PL), sem esclarecer se aceitava o desafio.
A corrupção dominou parte significativa do confronto, com Flávio a recordar as condenações anteriores de Lula, enquanto o Presidente brasileiro questionou o adversário sobre uma alegada negociação de 134 milhões de reais com o banqueiro Daniel Vorcaro, antigo proprietário do Banco Master.
Flávio defendeu a legalidade dos valores destinados ao financiamento de um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro, mas o assunto continuou a alimentar a troca de acusações. O ambiente aqueceu ainda mais quando Lula chamou “miliciano” ao rival.
Na área da segurança pública, Flávio Bolsonaro prometeu declarar “guerra ao narcoterrorismo” e classificar organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e as milícias como grupos narcoterroristas.
Lula, por sua vez, defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública e uma actuação coordenada entre os diferentes níveis de governo para combater o crime organizado e recuperar territórios sob controlo de grupos criminosos. Os dois também trocaram provocações sobre o voto dos presidiários, com Lula a responder ironicamente às declarações do adversário.
A economia foi outro ponto de divergência. Flávio criticou o aumento do custo de vida e o endividamento das famílias, resumindo a situação com a expressão “está tudo caro”. Lula rebateu com dados sobre a inflação dos alimentos, afirmando que o aumento durante o seu mandato foi inferior ao registado no Governo anterior. O debate abordou igualmente o programa Bolsa Família e a redução da jornada de trabalho no modelo conhecido como escala 6x1, expondo diferenças entre os candidatos sobre as políticas sociais e laborais.
Na política externa, Lula acusou a família Bolsonaro de favorecer os interesses dos Estados Unidos em detrimento da soberania brasileira, questionando a posição de Flávio sobre a exploração de terras raras e a relação com Washington. O senador rejeitou a ideia de entregar recursos nacionais aos norte-americanos e afirmou ter ido à Casa Branca para defender empresas e produtos brasileiros.
O Presidente acusou ainda Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato, de pressionar contra o Brasil a partir dos Estados Unidos, acusações que o senador contestou indirectamente ao defender a situação do familiar.
A imprensa internacional destacou o tom agressivo do confronto e a polarização política brasileira. Apesar da intensidade das acusações, o debate terminou sem uma vantagem claramente decisiva, deixando em aberto a capacidade dos dois candidatos de converter o confronto político em propostas concretas para responder aos desafios económicos e sociais do Brasil.



































