‘‘VIVEMOS DIAS DE TERROR’’: PUGILISTA ANGOLANO DENUNCIA CLIMA DE MEDO ENTRE ESTRANGEIROS NA ÁFRICA DO SUL

O pugilista internacional angolano Ndombassy manifestou profunda preocupação com os actos xenófobos na África do Sul, afirmando que milhares de estrangeiros vivem actualmente sob clima de medo e incerteza. Em declarações marcadas por fortes críticas à realidade social sul-africana, o atleta descreveu o ambiente em Cape Town como "dias de terror" para muitos cidadãos africanos residentes naquele país.

Imagem: DR Ponto de Situação

A preocupação da comunidade angolana na África do Sul ganhou novos contornos após as declarações do pugilista internacional angolano Cristiano Ndombassy, que denunciou uma crescente onda de hostilidade contra estrangeiros, sobretudo cidadãos africanos oriundos de países vizinhos.

Segundo o atleta, a situação é particularmente preocupante em Cape Town, onde, afirmou que, muitos estrangeiros passaram a viver com receio de ataques, perseguições e actos de intimidação. "Os estrangeiros estão a viver tempos de terror", declarou, acrescentando que a tensão tem aumentado nos últimos meses.

Na análise de Ndombassy, a raiz do problema está associada à crise do emprego e ao sentimento de frustração de parte da população sul-africana. O pugilista sustentou que muitas empresas preferem contratar estrangeiros devido ao seu desempenho profissional e disponibilidade para o trabalho, situação que, segundo ele, gera ressentimento em alguns sectores da sociedade.

"Há muitos sul-africanos que não aceitam que estrangeiros ocupem determinados postos de trabalho. Muitos querem salários mais elevados e oferecem pouca mão-de-obra. Isso está a alimentar um sentimento de revolta que acaba por ser descarregado sobre os estrangeiros", afirmou.

O desportista vai mais longe ao sugerir que o actual cenário pode estar a ser influenciado por interesses políticos. Na sua perspectiva, alguns grupos procuram instrumentalizar o descontentamento social numa altura em que o país se prepara para importantes desafios eleitorais.

Para Nombassy, a violência e a perseguição aos imigrantes não podem ser justificadas por dificuldades económicas ou divergências políticas. O pugilista lamentou que cidadãos africanos que procuraram oportunidades de vida na África do Sul estejam hoje a enfrentar situações de insegurança e discriminação.

Uma das críticas mais contundentes do atleta recai sobre aquilo que considera ser um tratamento desigual entre estrangeiros negros e cidadãos de outras origens. Segundo relatou, os principais alvos dos ataques são africanos provenientes de países como Moçambique, Zimbabwe, Malawi e República Democrática do Congo.

"Os sul-africanos querem expulsar os negros. Quando se trata de cidadãos brancos ou de outras nacionalidades com maior influência económica, a atitude é diferente", denunciou.

Ndombassy recordou ainda uma experiência pessoal que, segundo afirmou, demonstra a existência de discriminação racial e social. O pugilista contou que, após perder a sua documentação, enfrentou dificuldades e maus-tratos durante o processo de regularização da sua situação migratória. Contudo, afirmou que a postura das autoridades mudou quando alguém de raça branca interveio.

"Foi uma situação muito triste. Percebi que havia uma diferença de tratamenton quando o meu agente interveio, tudo mudou. Isso marcou-me profundamente", lamentou.

Outro ponto que preocupa o atleta é o impacto da tensão social sobre sectores estratégicos da economia, particularmente o dos transportes. Segundo Ndombassy, existem sinais de crescente impaciência entre operadores do sector, que também se sentem afectados pela instabilidade.

O pugilista revelou ainda que circulam informações sobre ultimatos lançados por grupos hostís aos estrangeiros, embora as autoridades continuam a apelar à calma e à convivência pacífica.

Apesar dos pronunciamentos do Presidente sul-africano e de líderes tradicionais, incluindo representantes da nação zulu, Ndombassy considerou que a situação continua longe de uma solução definitiva. Por isso, apelou à intervenção firme das autoridades para garantir a segurança dos imigrantes e evitar que novos episódios de violência venham a manchar a imagem de uma das maiores economias do continente africano.

"As pessoas vieram para cá para trabalhar, sustentar as suas famílias e viver em paz. Ninguém deveria ser perseguido por causa da sua nacionalidade", concluiu...