NÃO POSSO CALAR-ME DIANTE DA VERGONHA QUE CIRCULA NAS REDES SOCIAIS
Ao entrar no Facebook, nesta segunda-feira, 27 de Maio, deparei-me com um vídeo que me deixou profundamente inquieto. As imagens mostravam duas adolescentes, aparentemente entre os 14 e os 15 anos, num quarto, acompanhadas por dois jovens, num ambiente que sugeria proximidade imprópria para a idade das menores.
No vídeo, os jovens aparentavam estar sob efeito de substâncias psicoactivas. As adolescentes surgiam descontraídas, sorriam, dançavam e demonstravam ter consciência de que estavam a ser filmadas.
Num determinado momento, uma das meninas dizia, entre sorrisos: “Não me viola”, enquanto um dos jovens se aproximava dela. Noutra cena, uma das menores era tocada em zonas íntimas e, mais tarde, repetia-se comportamento semelhante em relação à outra adolescente.
Um dos homens, visivelmente sob efeito de uma substância que alterou o seu sistema nervoso central, afirmava: “Isso é que é vida…”.
Não conheço o contexto integral da gravação nem me cabe fazer julgamentos precipitados sobre factos que devem ser apurados pelas autoridades competentes.
Nas redes sociais surgiram comentários que associavam as menores à prostituição, mas até ao momento não há confirmação pública que sustente tal afirmação. Ainda assim, independentemente da existência ou não dessa realidade, o simples facto de adolescentes se encontrarem expostas a ambientes desta natureza já deve preocupar-nos profundamente.
O que mais inquieta não é apenas o vídeo em si, é o retrato silencioso que ele pode revelar: menores inseridas precocemente em contextos de sexualização, exposição digital, consumo de substâncias e relações marcadas por desequilíbrio de maturidade e poder.
Precisamos de ter coragem para discutir causas e não apenas condenar consequências.
Em muitos casos, estas situações nascem da conjugação de vários factores: fragilidade do acompanhamento familiar, ausência de educação sexual adequada, dificuldades económicas, busca precoce por validação social, influência das redes sociais, normalização de conteúdos impróprios e, por vezes, acções de adultos que manipulam emocional ou materialmente adolescentes.
Também não podemos ignorar o papel das plataformas digitais, onde a exposição excessiva passou a ser confundida com popularidade e onde muitos jovens crescem sem ferramentas suficientes para distinguir atenção de exploração.
As consequências são profundas e nem sempre imediatas. Para além do risco de gravidez precoce e de doenças sexualmente transmissíveis, existem impactos emocionais que podem acompanhar estas adolescentes durante anos: baixa autoestima, interrupção escolar, dependência económica, vulnerabilidade psicológica e dificuldade em construir relações saudáveis no futuro.
Mais preocupante ainda é quando situações desta natureza começam a ser encaradas com normalidade ou entretenimento colectivo. Quando a sociedade comenta, partilha e transforma episódios delicados em espectáculo, perde-se sensibilidade e enfraquece-se o dever de proteger.
Recentemente, tivemos relatos de casos de aliciamento de menores para práticas impróprias, o que demonstra que o problema não é isolado. Por isso, o combate não deve acontecer apenas quando o vídeo já circula, deve começar antes: em casa, na escola, nas igrejas, nos bairros e nas instituições públicas.
Que os órgãos competentes investiguem sempre que existam indícios de violação dos direitos das crianças, mas, nós enquanto componentes desta sociedade, também façamos a nossa parte, porque proteger menores não significa controlar a juventude, significa garantir que cresçam com dignidade, segurança, orientação e oportunidades.
Temos uma missão cada vez maior.
As adolescentes de hoje não são apenas estatísticas do presente, serão mães, profissionais, líderes e educadoras do amanhã e, uma sociedade que falha em protegê-las compromete inevitavelmente o seu próprio futuro.





































