O CASO CETEP: QUANDO O INTERESSE INDIVIDUAL COMPROMETE O BEM COMUM

É cada vez mais frequente ouvir relatos de funcionários que desviam o património das instituições, prejudicando milhares de cidadãos em nome de um suposto “progresso pessoal” que, na prática, compromete o bem colectivo.

Imagem: PNA

Desta vez, tive contacto com a informação segundo a qual um enfermeiro do Centro Especializado de Tratamento de Endemias e Pandemias (CETEP), no Calumbo, por alegadamente não ter condições para equipar o seu futuro centro de saúde, terá optado por desviar materiais hospitalares da instituição onde está vinculado, uma acção que mancha não apenas o seu nome, mas também a carreira.

Alegou ainda que os seus rendimentos não lhe permitem adquirir equipamentos hospitalares, tendo decidido agir após encontrar uma sala aberta que, normalmente permanece fechada por não albergar pacientes.

De certo modo, caso se confirme o que o próprio terá admitido, podemos concluir que, tão logo tivesse o seu centro de saúde em funcionamento, parte dos equipamentos ou até medicamentos poderiam ter origem duvidosa, enquanto as instituições hospitalares continuam a enfrentar carências graves de material e fármacos.

Esta realidade tem sido recorrente em várias unidades sanitárias, onde nem sempre o básico está garantido. Há pacientes que, em muitos casos, não conseguem obter sequer paracetamol nas farmácias internas, sendo obrigados a recorrer a farmácias externas. Em algumas situações, estes estabelecimentos estão ligados a redes próximas de determinados profissionais. O mesmo fenómeno, ainda que de forma diferente, também se verifica em alguns pedidos de exames.

Este é apenas um entre muitos casos que ocorrem a nível nacional, muitos dos quais ficam no silêncio institucional ou acabam por responsabilizar pessoas que nada tiveram a ver com o processo, pagando pelos erros de indivíduos que se julgam “chicos-espertos”.

Há três ou quatro anos, tive conhecimento de um profissional de saúde, proprietário de um posto médico, que sempre que estivesse de serviço encaminhava os pacientes para a realização de exames externos, alegando que o laboratório local não funcionava adequadamente. Mais tarde, descobriu-se que o próprio era dono do referido posto médico e a instituição pública teve de tomar medidas.

O problema persiste e a questão do desvio do património das instituições torna-se cada vez mais preocupante. Isto deve levar-nos a uma reflexão séria sobre o país que estamos a construir, sobretudo porque, na ausência de recursos, são os próprios cidadãos que mais sofrem, enquanto os custos de reposição recaem sobre o erário público.

As consequências deste tipo de comportamento não são apenas individuais, mas profundamente colectivas.

É necessário reforçar o sentido de responsabilidade e promover uma cultura de integridade, onde o respeito pelo património público seja um princípio inegociável. Não se trata apenas de pensar em nós, mas também no próximo, só assim construiremos uma sociedade mais justa e equilibrada.

O progresso social é responsabilidade de todos: importa pensar no futuro das próximas gerações. Preservemos o que é de todos e não retiremos aquilo que não nos pertence, porque o que é público é, por definição, um bem comum.

Neste contexto, as instituições são obrigadas a reforçar os seus sistemas de segurança, uma vez que o desvio de bens, muitas vezes, não vem de fora, mas sim de dentro, de quem partilha connosco o mesmo espaço de trabalho, de quem conhecemos e com quem dividimos o dia-a-dia.

Ainda assim, defendo que é essencial reforçar a educação e a consciência cívica, para que não seja necessário vigiar cada passo como se todos fossem potenciais infractores. A confiança também se constrói, mas só sobre bases de responsabilidade.

O património é de todos: preservemo-lo é nossa missão!

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