O DIA EM QUE O BEM SE MULTIPLICOU NUM AZUL E BRANCO
Na manhã de terça-feira, 19 de Maio, saí da zona do Cassequel em direcção à Vila do Gamek. Pelo caminho, passei pelo mercado 1.º de Agosto, conhecido como Praça Nova, no bairro Antonov-57, também chamado Catinton.
Numa das paragens de táxi, procurei saber quem era a última pessoa da fila, uma vez que, naquele local, os passageiros sobem por ordem de chegada para evitar conflitos. Trata-se de uma forma de organização criada pelos chamados lotadores, jovens que trabalham nas paragens a chamar passageiros para os táxis.
Enquanto aguardava pela minha vez, reparei numa senhora que tentava convencer um dos lotadores a reduzir o valor do chamado “carapau”, taxa cobrada aos passageiros que transportam cargas ou bagagens. Em muitos casos, quando a pessoa não paga, é impedida de seguir viagem no táxi.
A senhora insistia:
“Moço, eu não tenho como pagar este valor. Se eu entregar esse dinheiro, não vou conseguir chegar a casa. Faça um desconto, por favor.”
O jovem recusava e respondia em tom agressivo.
Observei a situação e aproximei-me da senhora para perguntar quanto estava a ser cobrado. Depois de ouvir o valor, subi para o táxi e comecei a fazer alguns cálculos.
A senhora continuava a implorar pela redução do preço, explicando que, além daquele valor, ainda teria de pagar os 300 kwanzas da viagem ao cobrador, conhecido como gerente, sem contar com os restantes encargos da carga que transportava.
Foi então que outra senhora manifestou disponibilidade para ajudar a pagar uma parte do valor. Eu fiz o mesmo. Pouco depois, outros passageiros também demonstraram vontade de contribuir.
Chamei imediatamente a senhora para entrar no táxi, garantindo que reuniríamos o dinheiro necessário. Naquele instante, o lotador continuava alterado e dizia:
“Não me siga. Fique aí mesmo! Se quiser, coloque você as coisas na porta-bagagens. Está à espera de quê?”
A atitude do jovem causou indignação entre os passageiros, enquanto o cobrador observava no seu canto um episódio semelhante aos que testemunha regularmente, uma vez que muitos passageiros enfrentam situações do género, sobretudo nas zonas onde existem mercados.
Entreguei parte do dinheiro à senhora para que pudesse pagar o lotador. Outra passageira, sentada ao meu lado, comprometeu-se a acrescentar o restante valor para ajudar no pagamento da corrida.
A situação acabou resolvida e a viagem começou.
Durante o trajecto, os passageiros comentavam o ocorrido e criticavam a postura do lotador, que aparentava ter entre 38 e 40 anos. Uma das senhoras presentes afirmou que todos têm o direito de ganhar o sustento do seu trabalho, mas sem prejudicar os outros e sempre com justiça.
A conversa transformou-se numa verdadeira lição de solidariedade. O cobrador também mostrou compreensão e aceitou reduzir parte do valor da corrida da senhora.
Pouco tempo depois, uma senhora com cerca de 60 anos, sentada ao meu lado, anunciou que desceria antes do destino final. Ao pagar a sua passagem, disse-me:
“Filho, acrescenta apenas 100 kwanzas. Eu já paguei uma parte do teu táxi”.
Agradeci imediatamente pelo gesto, surpreendido com a atitude daquela senhora. Enquanto ela descia, fiquei a pensar no significado daquele momento. Tinha ajudado alguém e, pouco depois, recebia aquele gesto.
A experiência levou-me a reflectir sobre a importância de ajudarmos o próximo. Todos nós precisamos de ajuda em algum momento da vida e nunca sabemos quando seremos nós a necessitar da mão de alguém.
Os gestos de solidariedade, quando feitos de forma sincera e sem esperar recompensa, têm um valor imenso. São atitudes que fortalecem a convivência humana e mostram que ainda existe sensibilidade no meio das dificuldades do quotidiano.
Mais tarde, chegou a minha vez de descer, na pedonal da Vila do Gamek, junto a paragem do Benfica. Antes de seguir o meu caminho, ouvi novamente palavras de agradecimento da senhora que havia sido ajudada:
“Meu filho, que Deus te abençoe muito!”
Agradeci e continuei a pensar não apenas no gesto dela, mas também na disponibilidade demonstrada pelos outros passageiros que decidiram ajudar sem hesitar.
Esta história não surge para exaltar a minha atitude, mas para destacar a corrente de solidariedade que nasceu espontaneamente dentro de um táxi azul e branco de Luanda. Num espaço tantas vezes associado aos problemas do dia-a-dia, várias pessoas decidiram agir com humanidade.
Os mais velhos costumam dizer que “a mão que dá é a mão que recebe”. A vida acaba por devolver aquilo que oferecemos aos outros. Quem espalha o bem, mais cedo ou mais tarde, acaba também por encontrá-lo pelo caminho.





































