EMPREGADAS DOMÉSTICAS: ENTRE A DIGNIDADE E OS MAUS-TRATOS
Em mais uma caminhada diária nos nossos táxis de Luanda, que mais parecem tribunais populares e autênticas escolas da vida, ouvem-se assuntos dos mais variados sectores da sociedade.
Neste ambiente, muitos falam, outros comentam e há quem se limite a ouvir com atenção. Ali surgem os mestres da experiência. Entre alegrias e tristezas, e com cada interveniente a partilhar as suas ideias, a conversa ganha ritmo e, por vezes, torna-se impossível não emitir uma opinião, que tanto pode merecer aplausos como rejeição.
Nestas conversas, ouço com regularidade o clamor de senhoras que trabalham em várias residências como empregadas domésticas. É triste escutar relatos de patrões e patroas que tratam as suas trabalhadoras de forma indigna.
Muitas reclamam que nem sequer têm acesso à alimentação, apesar de serem elas a confeccionar as refeições para os patrões. Ai daquela que ousar pedir um pouco de comida: é imediatamente chamada à atenção, muitas vezes aos gritos. Contudo, entre estes casos, também existem bons exemplos de patrões que cuidam das suas trabalhadoras com respeito e consideração.
"Eu trabalhei numa casa onde a minha patroa não ficava satisfeita quando me via sentada, mesmo depois de eu já ter concluído todas as tarefas do dia. Chamava-me à atenção e arranjava sempre qualquer coisa para eu não ficar parada", desabafou uma das senhoras, visivelmente revoltada.
O debate alastrou-se. Muitas defendiam que tinham bons patrões, enquanto outras confirmavam viver situações semelhantes e reprovavam o comportamento daqueles que adoptam este tipo de postura.
"Já ganho mal e ainda me tratam mal. Não suportei e preferi abandonar", desabafou outra senhora, visivelmente indignada, acrescentando que jamais regressará a um trabalho desta natureza e que não aconselha ninguém a passar pela mesma experiência.
Por outro lado, havia senhoras que apresentavam um discurso repleto de elogios aos patrões, descrevendo uma relação marcada pelo respeito e pela valorização profissional. Diziam ser tratadas como membros da família, beneficiando de férias, salários pagos a tempo, comunicação saudável, dispensas em situações pessoais ou familiares e, quando possível, subsídios adicionais.
Ao ouvirem estes relatos, muitas comentavam: "Quem me dera ter patrões com esta postura."
"Até comida para a minha casa e outras ofertas eu recebo", afirmou uma delas.
Enquanto isso, outras, visivelmente agastadas, lamentavam o comportamento de patrões que mantêm as suas residências em completo desalinho.
"Até roupas íntimas encontramos espalhadas pelo chão. Deixam os seus pertences em qualquer lugar. Há patrões e patroas muito desorganizados. Nem sequer pensam na pessoa que tem de arrumar tudo", lamentou outra senhora, que esperava uma postura diferente de quem a contratou para cuidar da casa e, em muitos casos, da própria alimentação da família.
As reclamações são inúmeras e, a cada dia, surgem novos relatos.
"Até preservativos encontro frequentemente no chão e sou obrigada a deitá-los fora. Algo que nem o meu marido faz", declarou outra trabalhadora, provocando reacções imediatas.
"Até esse ponto já não. Eu não suportaria isso", reagiu uma senhora que, até então, acompanhava em silêncio os desabafos das restantes.
Perante este quadro, impõe-se a necessidade de elogiar os patrões cujo comportamento merece destaque. Pela postura humana que demonstram perante as suas trabalhadoras domésticas, os comentários positivos multiplicam-se e o seu nome permanece associado a bons exemplos. Os elogios surgem naturalmente e quem trabalha consigo não hesita em reconhecê-lo.
Aos patrões e, para facilitar o entendimento de todos, também às patroas, importa recordar que é fundamental tratar com dignidade quem trabalha convosco. Coloquemo-nos no lugar dos outros; a isto chamamos empatia.
De que serve apresentarmo-nos bem vestidos, com elegância, exibindo bom discurso e palavras bonitas, se maltratamos aqueles que diariamente contribuem para o nosso bem-estar?
A sociedade necessita de pessoas que cultivem o humanismo, que valorizem o próximo e que coloquem o amor e o respeito no centro das suas acções.
As nossas acções deixam marcas, umas curam, outras ferem. Por isso, importa recordar que a grandeza de uma pessoa não se mede pela posição que ocupa na sociedade, mas pela forma como trata aqueles que dela dependem ou com ela trabalham.
No silêncio de muitas casas, existem mulheres que cozinham, limpam, organizam e ajudam a construir o conforto de inúmeras famílias. Merecem respeito, consideração e dignidade, porque, no fim de contas, uma sociedade verdadeiramente humana não se reconhece pelos discursos que faz, mas pela forma como trata os seus mais vulneráveis.
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