NÃO ME TOQUE: O FENÓMENO QUE INSTALOU O MEDO NOS BAIRROS

O medo tomou conta das ruas. quase ninguém toca em ninguém, nem sequer de forma acidental. Um simples contacto físico pode transformar-se numa acusação pública, numa sessão de espancamento ou até numa detenção. Em mercados, táxis e bairros, cresce um clima de desconfiança colectiva que está a deixar sequelas sociais e psicológicas.

Imagem: DR

Nos últimos dias, multiplicaram-se relatos sobre um alegado fenómeno de desaparecimento ou redução dos órgãos genitais masculinos após um simples toque corporal. Muitos acreditam tratar-se de feitiçaria. Outros falam de manipulação psicológica colectiva. 

Não se sabe, com exactidão, até que ponto os relatos correspondem à realidade física ou se resultam de um fenómeno psicológico alimentado pelo pânico social.

Angola já viveu episódios semelhantes, como o fenómeno do “cachão vazio” e os casos de desmaios colectivos em escolas, situações que abriram espaço para especulações, violência e aproveitamento por parte de indivíduos mal-intencionados.

As primeiras denúncias surgiram na província do Lunda-Norte e rapidamente espalharam-se para Luanda. Vários cidadãos foram detidos após acusações relacionadas com o alegado fenómeno. Em muitos casos, bastou um toque involuntário para alguém ser acusado de “roubar” órgãos genitais masculinos.

Hoje, o medo parece ter-se tornado rotina. Em qualquer espaço público, basta um contacto físico para que muitos verifiquem imediatamente se “continua tudo no lugar”. O gesto, antes discreto, tornou-se reflexo colectivo de uma sociedade mergulhada no pânico e na desconfiança.

O mais preocupante é que cidadãos estão a ser agredidos sem provas concretas, enquanto indivíduos de má-fé podem estar a aproveitar-se da confusão para praticar crimes, espalhar o pânico ou ajustar contas pessoais.

Nos mercados, nos táxis e até nas escolas, o alerta tornou-se obsessivo: “não me toque”. A sociedade começa a viver sob suspeita permanente. Somos todos suspeitos até prova em contrário.

Na terça-feira, 12 de Maio, o músico angolano Faculdade de Rimas foi agredido por moradores do bairro Rocha Pinto, em Luanda, após ser acusado de ter retirado o órgão genital de uma criança mediante contacto físico. O artista acabou detido depois das agressões sofridas.

Recentemente, dois cidadãos na província da Lunda-Norte afirmaram ter vivido o alegado fenómeno de desaparecimento dos órgãos genitais masculinos. Segundo os mesmos, os órgãos teriam “encolhido” após um toque corporal. Os acusados foram detidos e aguardam-se os resultados das investigações.

Na mesma província, alguns suspeitos foram conduzidos às autoridades tradicionais e submetidos a rituais, numa tentativa de “reverter” a situação. Testemunhas afirmaram que os órgãos voltaram ao estado normal, embora não totalmente. Autoridades tradicionais locais associaram o fenómeno a práticas de feitiçaria e alegados actos de enriquecimento ilícito.

Mas afinal, o que diz a ciência?

Especialistas apontam para a chamada síndrome de Koro, um transtorno psicológico já estudado em vários países.

Segundo um artigo publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, em 2018, a síndrome caracteriza-se por um episódio súbito de ansiedade intensa relacionado com a crença de que o pénis  ou, nas mulheres, os mamilos e os grandes lábios  está a retrair-se para dentro do corpo, podendo provocar medo de impotência, esterilidade ou morte.

O estudo explica ainda que o fenómeno pode surgir de forma isolada, mas também espalhar-se socialmente, originando episódios colectivos de pânico. O tratamento passa por acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia e educação psicológica.

Ou seja, embora muitos associem o fenómeno ao sobrenatural, a ciência defende que o medo, a sugestão colectiva e a ansiedade podem produzir sensações físicas reais nas vítimas.

Ainda assim, há uma pergunta que continua a ser feita: quando o medo se instala na mente, quem consegue convencer o coração?

É urgente que as autoridades, os profissionais de saúde, líderes comunitários e autoridades tradicionais trabalhem juntos para travar a propagação de informações falsas e evitar mais actos de violência. O país não pode permitir que o pânico colectivo substitua a razão.

As crianças começam a crescer com medo do toque humano. Nos táxis, o silêncio já não é apenas cansaço urbano, é vigilância. Nos bairros, os olhares carregam suspeitas e, enquanto todos discutem o “desaparecimento” dos órgãos genitais, os verdadeiros problemas sociais parecem desaparecer do debate público.

No meio deste cenário, a maior amputação talvez não seja física, é a amputação da confiança entre as pessoas.

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