DA UNIVERSIDADE AO CRIME: A HISTÓRIA SANGRENTA DE GREGÓRIO UPA E A ONDA DE VIOLÊNCIA QUE CHOCOU CAPALANGA

Assaltos à mão armada, roubos de telemóveis, formação de grupo criminoso e um homicídio brutal marcam a trajectória de Gregório Upa, de 29 anos, antigo estudante universitário e proprietário de um cyber café em Luanda.

Imagem: Ponto de Situação

Tal como o Ponto de Situação apurou, acompanhado do comparsa Adelino Samassanga Samanga Comandala, também comhecido por Ino, Gregório mergulhou num ciclo de violência que culminou na morte de um segurança e em várias vítimas baleadas no município dos Mulenvos, bairro Capalanga, levantando questões sobre a circulação ilegal de armas e a participação de agentes de segurança no fornecimento de meios para o crime.

A transição para o mundo do crime

Gregório Upa levava, aparentemente, uma vida comum. Estudante universitário e proprietário de um cyber café, também possuía três motorizadas de duas rodas, sinais de alguma estabilidade financeira. No entanto, por razões ainda não totalmente esclarecidas, decidiu abandonar a rotina e enveredar pelo mundo da criminalidade.

Segundo informações recolhidas durante as investigações, Gregório começou por investir na obtenção de meios para actividades ilícitas. Terá adquirido uma arma por 150 mil kwanzas, tendo pago 100 mil kwanzas em dinheiro. Os 50 mil kwanzas restantes foram compensados através de serviços de desbloqueio de cinco telemóveis realizados por um indivíduo identificado como Marcos, apontado como suposto agente da Polícia Nacional, além da entrega de um carregador.

Ainda no mesmo processo de preparação, Gregório comprou 27 munições por 75 mil kwanzas a um homem identificado como senhor Oliveira, amigo de Marcos, os dois, alegadamente, agentes da Polícia de Guarda Fronteira. A possível participação de membros das forças de segurança no fornecimento de armamento levanta sérias preocupações sobre redes informais de tráfico de material bélico.

O recrutamento do comparsa

Foi nesse contexto que Gregório convidou o amigo Ino, para integrar o esquema criminoso.

Em declarações, Ino afirmou que aceitou participar nas acções por influência do amigo e por ambição material.

“Entrei no mundo do crime a convite dele. Também queria ter uma motorizada e algumas condições mínimas como as que ele tinha”, confessou.

A parceria rapidamente evoluiu para uma série de assaltos violentos em diferentes pontos da capital.

O assalto que terminou em morte

O episódio mais grave ocorreu no dia 12 de fevereiro de 2026, por volta das 20h00, no município dos Mulenvos, bairro Capalanga.

Segundo o relato de Gregório, a dupla estava a seguir “milimetricamente” o proprietário de uma residência, um advogado, aguardando o momento mais oportuno para atacar. Quando o advogado entrou em casa e o segurança se preparava para fechar o portão, os assaltantes avançaram.

O vigilante, identificado como Noé Armando Doutor, de 41 anos, tentou resistir à investida.

Gregório confessou ter disparado à queima-roupa, atingindo o segurança na região do abdómen. O impacto foi fatal e Noé Armando Doutor morreu no local.

Após o homicídio, os criminosos levaram um telemóvel Samsung S23 Ultra e uma arma de fogo do tipo AKM, pertencente à empresa de segurança para a qual o vigilante trabalhava, colocando-se em fuga.

Uma família devastada

A morte do segurança deixou uma família em situação dramática.

A viúva, Madalena Joaquim, relata viver dias de profunda dificuldade após perder o marido, que era o principal sustento da casa.

Com sete filhos menores, Madalena diz não encontrar palavras para consolar as crianças.

Segundo ela, o marido nem chegou a receber o primeiro salário no novo emprego devido à tragédia.

“A vida está muito difícil. Não sei como consolar os meus filhos”, lamentou.

Vítimas da violência indiscriminada

A actuação da dupla não se limitou a assaltos. Em vários episódios, as vítimas foram baleadas sem aviso.

Uma dessas vítimas é Bibiana Caiovo Palanca, de 31 anos, que foi surpreendida quando estava em casa com o filho.

Ela conta que estava a ouvir música no portão da residência quando percebeu a presença dos assaltantes.

“Quando me viram levantar para entrar em casa, empurraram o portão e dispararam”, relatou.

Bibiana foi atingida na parte inferior do ombro direito, com a bala atravessando o corpo e saindo pelas costas. Com o impacto do tiro, caiu no chão, sendo posteriormente socorrida por vizinhos.

Outros ataques e vítimas

Entre os diversos crimes atribuídos à dupla, estão assaltos violentos na via pública.

Num dos episódios, ocorrido a 20 de Fevereiro, está uma mulher que foi baleada após visitar um amigo que havia perdido recentemente a mãe. O amigo, Hermenegildo Calanga, contou que estava a acompanhá-la até ao carro quando foram surpreendidos pelos assaltantes.

“Partiram o vidro do carro com a arma e dispararam contra a minha amiga”, relatou, visivelmente abalado. A vítima encontra-se internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

LEIA TAMBÉM: SIC APRESENTA DOIS CIDADÃOS DETIDOS POR HOMICÍDIO QUALIFICADO E OFENSAS A INTEGRIDADE FÍSICA