MORRE ABEL COUTO, REFERÊNCIA MAIOR DA TELEDRAMATURGIA ANGOLANA

A cultura angolana encontra-se de luto com o falecimento de Abel Couto, considerado o pai da teledramaturgia nacional, ocorrido no último Domingo, 26, vítima de doença. A sua morte reacende memórias de uma geração que ajudou a construir os alicerces da ficção televisiva no país, marcada pela criatividade, simplicidade e profundo compromisso com a arte.

Imagem: Jornal de Angola

A notícia da morte de Abel Couto provocou consternação no seio da classe artística e dos telespectadores que, ao longo de décadas, acompanharam o seu trabalho na Televisão Pública de Angola (TPA).

Mais do que um realizador e argumentista, Couto foi um verdadeiro arquitecto da narrativa televisiva angolana, responsável por dar identidade própria à produção nacional numa época dominada por conteúdos estrangeiros.

O actor Walter Ferreira, uma das vozes que mais de perto testemunhou o legado do mestre, recorda-o como “um homem simples e um verdadeiro mestre”, destacando o papel determinante que desempenhou na sua formação artística.

“Foi pelas suas mãos que entrei para o mundo da representação”, afirmou, sublinhando que a influência de Abel Couto ultrapassou os limites profissionais, marcando também a sua visão sobre a arte e a vida.

Segundo Walter Ferreira, falar de Abel Couto é revisitar um período crucial da história da televisão angolana, particularmente nas décadas de 80 e 90, quando a TPA enfrentava forte concorrência das novelas brasileiras. Ainda assim, Couto conseguiu afirmar-se com conteúdos próprios, criando narrativas que reflectiam a realidade social angolana e cativavam o público local.

Descrito como um criador singular, Abel Couto destacou-se pela capacidade de escrever para televisão com uma sensibilidade rara. “Falar do Couto é falar do pai da ficção televisiva em Angola”, reforçou Walter Ferreira, acrescentando que o mentor foi também responsável por cunhar o termo “tele estórias”, conceito que viria a marcar uma era na produção audiovisual do país.

Para além do talento técnico, o lado humano do criador é igualmente lembrado com emoção. Walter Ferreira evocou momentos marcantes da sua convivência com o mestre, como a forma simples e poética com que ensinava o significado da arte.

“Mostrou-me um coqueiro com o pôr-do-sol ao fundo e disse: ‘Isso é arte, Walter’”, recordou, evidenciando a sensibilidade estética que caracterizava Abel Couto.

O seu espírito descontraído e afectuoso também ficou gravado na memória dos que com ele conviveram. “Walter, hoje convido-te a almoçar na tua casa em minha companhia”, dizia, num tom brincalhão que revelava proximidade e humanidade.

Com uma carreira marcada por mais de duas dezenas de produções, entre curtas-metragens e conteúdos televisivos, Abel Couto deixa um legado incontornável na história cultural de Angola.

A sua contribuição ultrapassa a dimensão artística, representando um marco na afirmação da identidade nacional no audiovisual.

A sua partida abre um vazio difícil de preencher, mas também reforça a necessidade de preservar e valorizar o património cultural que ajudou a construir. Num país onde a indústria criativa continua em desenvolvimento, o exemplo de Abel Couto permanece como referência de excelência, dedicação e visão.

Enquanto a classe artística chora a perda de um dos seus maiores mestres, fica a certeza de que o seu legado continuará vivo nas histórias contadas, nos actores formados e na memória colectiva de um povo que aprendeu, através dele, a ver-se no ecrã.