ENTRE AVANÇOS E DESAFIOS: DIA MUNDIAL DA SAÚDE EXPÕE FERIDAS E ESPERANÇAS EM ANGOLA
No dia em que o mundo celebra o Dia Mundial da Saúde, instituído pela Organização Mundial da Saúde, Angola olha para dentro e confronta-se com uma realidade marcada por progressos visíveis, mas também por desafios persistentes que continuam a afectar a vida de milhões de cidadãos.
Celebrar a saúde, em Angola, é também reconhecer as fragilidades de um sistema que ainda luta para responder às necessidades da população. Nas ruas, nos bairros e nas unidades sanitárias, multiplicam-se relatos que revelam um país em construção, onde a esperança convive com dificuldades diárias.
Para António Mageu, o cenário ainda é preocupante. O saneamento básico continua a ser um dos maiores entraves à melhoria da saúde pública. “Ainda estamos mal”, afirmou, sublinhando que muitas doenças persistem não por falta de solução, mas por ausência de dedicação e investimento eficaz.
A realidade descrita por Mageu ganha eco nas vozes dos cidadãos. No Zango 1, Teodora Vicente denuncia as condições de higiene precárias na venda de alimentos. “Nós alimentamo-nos mal”, lamentou, apontando para a comercialização de peixe em condições inadequadas, à beira da estrada, colocando em risco a saúde de quem consome.
Ana Pedro, também vendedeira, reforçou o sentimento colectivo: “A saúde ainda está mal, falta muito”. São vozes simples, mas carregadas de verdade, que traduzem o quotidiano de milhares de angolanos.
Contudo, há também sinais de progresso que não podem ser ignorados. O médico Herculano Gonçalves destaca avanços significativos nos últimos anos.
Segundo explicou, a mortalidade materna registou uma redução de 29%, enquanto a mortalidade infantil caiu de 68 para 52 óbitos por mil nascidos vivos em crianças menores de cinco anos. O acesso aos cuidados primários de saúde também aumentou, alcançando cerca de 79% da população.
Apesar destes ganhos, os desafios continuam a ser profundos. A malária mantém-se como a principal causa de doença e morte, especialmente entre os mais vulneráveis. A tuberculose persiste como ameaça silenciosa, enquanto doenças crónicas não transmissíveis, como hipertensão, diabetes e cancro, ganham terreno.
Mais de um quinto da população ainda enfrenta dificuldades no acesso regular a serviços básicos de saúde, uma realidade que evidencia desigualdades e limitações estruturais.
Por outro lado, iniciativas recentes apontam caminhos de esperança. O investimento na formação de mais de 15 mil profissionais de saúde, a implementação da telemedicina em várias províncias e a criação do Instituto Angolano de Controlo de Câncer representam passos concretos rumo a um sistema mais robusto e inclusivo.
No quadro das celebrações do Dia Mundial da Saúde, o Ministério da Saúde de Angola promove, esta terça-feira, 7 de Abril, em Luanda, uma Mesa-Redonda Nacional em que foram colocadas no centro do debate o papel da ciência, Sob o lema “Juntos pela saúde: apoie a ciência, a qualidade e a utilização dos cuidados de saúde”, o encontro que decorre no Hotel Epic Sana, surge como um momento de convergência entre diferentes sectores da sociedade angolana e parceiros internacionais, num esforço comum para repensar os caminhos da saúde pública no país.
A iniciativa reunirá autoridades governamentais, representantes das Nações Unidas, académicos, organizações da sociedade civil, profissionais de saúde, sector privado, juventude e estruturas comunitárias. Mais do que um evento institucional, trata-se de um espaço de escuta, partilha e construção colectiva de soluções para os desafios que ainda marcam o sistema de saúde em Angola.
A sessão de abertura contou com as intervenções da Ministra da Saúde e da Coordenadora Residente das Nações Unidas, sublinhando a importância da cooperação multilateral na promoção do bem-estar das populações.
O programa prossegue com dois painéis centrais que prometem aprofundar o debate. O primeiro, intitulado “Ciência que salva vidas”, com temas como inovações terapêuticas, avanços vacinais, diagnósticos laboratoriais e investigação genómica, áreas que representam a fronteira do conhecimento ao serviço da vida humana.
Já o segundo painel, “Ciência que aproxima decisões das pessoas”, centrará atenções no papel dos dados, da tecnologia e da inovação digital como ferramentas essenciais para melhorar a tomada de decisões em saúde e aproximar os serviços das necessidades reais das comunidades.
Num contexto em que Angola enfrenta simultaneamente desafios estruturais e progressos relevantes no sector da saúde, esta mesa-redonda assume-se como uma plataforma estratégica para reforçar o diálogo entre ciência, políticas públicas e com vista à construção de soluções sustentáveis.





































