O JUDAS DO NOVO TEMPO

Desde sempre, a história da humanidade regista episódios à moda de Judas.  Passaram séculos, mas o tema permanece actual, não como memória distante, mas como prática recorrente, disfarçada em gestos quotidianos e relações aparentemente sólidas.

Imagem: DR Ponto de Situação

Antes de olharmos para o “Judas” dos nossos dias, importa recuar a um dos episódios mais emblemáticos das Escrituras: a traição protagonizada por Judas Iscariotes contra Jesus Cristo.

Segundo o Evangelho de Mateus (26, 14-16), Judas, um dos doze discípulos, dirige-se às autoridades e negoceia a entrega do seu mestre. O preço foi fixado: trinta moedas de prata,  um valor simbólico, mas suficiente para manchar uma história que até então se escrevia com lealdade.

Após a condenação de Jesus, o peso da consciência instala-se. Em Mateus (27, 3-5), Judas reconhece o erro, tenta desfazer o feito, mas já é tarde. Há decisões que não conhecem marcha-atrás. O remorso chega, mas não repara e  a sua história termina de forma trágica, marcada pela incapacidade de suportar o peso da própria escolha.

É aqui que a narrativa deixa de ser apenas bíblica e passa a ser social.

Quantos Judas caminham hoje entre nós?

O Judas do nosso tempo não anda com moedas na mão, anda com oportunidades mal geridas, com palavras vazias e gestos calculados. É aquele que esquece com facilidade o bem que recebeu. Aquele que transforma a gratidão num fardo incómodo.

É o indivíduo que não assume os seus erros, preferindo projectá-los nos outros. É aquele que apaga da memória quem lhe estendeu a mão, assim que a vida lhe oferece um novo caminho.

Há Judas nos pequenos gestos: no colega que sabota silenciosamente o trabalho alheio para brilhar sozinho; no amigo que expõe confidências como se fossem notícias de última hora; no vizinho que transforma inveja em veneno; no jovem que abandona quem o ajudou assim que encontra outra oportunidade; no filho que se apropria do que não lhe pertence, deixando o passado para trás como se nunca tivesse existido.

O Judas contemporâneo sorri, convive e partilha a mesa, às vezes até o tecto. Caminha entre nós com naturalidade desconcertante e, no momento menos esperado, revela-se sem remorso imediato.

É alguém que não celebra o sucesso do outro, tolera-o apenas até ao instante em que pode derrubá-lo. É alguém que transforma confiança em estratégia e proximidade em oportunidade.

Os exemplos multiplicam-se, mas há uma constante que atravessa gerações: toda a acção carrega consequências.

Ficam marcas, reputações feridas, famílias abaladas, projectos interrompidos e relações quebradas que dificilmente se recompõem e, no silêncio mais íntimo, nasce também o peso invisível da culpa, esse juiz que não dorme e raramente absolve.

No fim, a maior perda não está apenas na vítima de Judas,  mas também no autor da acção, porque há algo que não se recupera: o carácter.

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