A DISTRACÇÃO PODE SER O ÚLTIMO CAPÍTULO DE ALGUÉM
Sábado, 11 de Abril. Dia de sol abrasador, daqueles que parecem derreter o asfalto e testar a paciência de qualquer cidadão. A viagem era curta: de Luanda ao Icolo e Bengo. No volante, um taxista, no ouvido, um telemóvel, combinação perigosa desde o primeiro quilómetro.
A atenção, que deveria estar firme na estrada, dividia-se com uma conversa aparentemente mais importante do que as vidas transportadas.
Por volta das 12h00, chegámos à Vila do Gamek, primeiro destino no Benfica. Até ali, tudo corria dentro da normalidade, mas, como quem anuncia tempestade em céu limpo, ouviu-se o chamamento habitual:
- Zango, Zango, Zango! Aproveitem a viagem!
Não hesitei. Entrei.
O ambiente manteve-se tranquilo até ao desvio do Zango. Foi aí que o cenário mudou de tom. O motorista retomou a conversa longa ao telemóvel.
-Senhor, não pode conduzir a falar ao telemóvel. Está a transportar vidas, alertou um passageiro no banco da frente, com a lucidez de quem reconhece o perigo.
Mas o aviso caiu em terreno árido. O motorista ignorou-o, alimentando a tensão que rapidamente se espalhou entre os ocupantes.
-Não passou pela escola de condução? Não sabe que isso é proibido? Não faça isso!, insistiu o mesmo passageiro, agora com a indignação à flor da pele.
O homem do azul e branco não ouvia ou fingia não ouvir. O cobrador, cúmplice no silêncio e na atitude, alinhou na defesa do condutor, como se a imprudência fosse um direito adquirido.
-Se quiser, chame a polícia. Não vou parar de falar. Agora, por abuso, vou continuar. Quem quiser, que ligue também. Seus invejosos, respondeu o motorista, num tom que misturava arrogância e desafio.
O ambiente tornou-se pesado. Uns discutiam, outros pediam para descer nas suas paragens, alguns comentavam o que ocorreu e havia, claro, o grupo do silêncio, aquele que observa, mas não intervém.
-Têm inveja do meu telemóvel de 150 mil. Comprem o vosso. Ou ainda usam de botão? Deixem-me falar à vontade, acrescentou, sob o olhar cúmplice do cobrador.
A resposta incendiou ainda mais os ânimos.
Intervim, tentando apaziguar o clima. Missão inglória. O motorista manteve-se irredutível, como se o volante fosse extensão do seu ego e não uma responsabilidade pública.
A viagem prosseguiu entre palavras cruzadas e riscos silenciosos. O telemóvel continuava colado ao ouvido, enquanto a prudência parecia ter sido deixada na paragem anterior.
Ao aproximar-me do Zango 1, anunciei a minha saída ao cobrador, com o objectivo de apanhar outra viatura rumo a outro ponto do Icolo e Bengo.
Não sei como terminou o episódio!
E é aqui que a reflexão se impõe, sem rodeios:
A lei é clara e não pede interpretação criativa. É proibido ao condutor utilizar o telemóvel ou qualquer dispositivo que comprometa a condução com o veículo em marcha.
Isto inclui: efectuar chamadas;
utilizar redes sociais ou aplicações;
qualquer acção que desvie a atenção do automobilista.
O uso só é permitido através de sistemas mãos-livres, como Bluetooth ou viva-voz, e ainda assim sem comprometer a segurança.
Mas entre o que está escrito e o que se pratica, vai uma distância perigosa.
A teimosia ou negligência de muitos automobilistas tem produzido consequências reais: acidentes, perdas humanas, danos materiais.
No fim de contas, a pergunta é simples, quase incómoda:
vale a pena atender uma chamada quando o preço pode ser uma vida?
Evitar continua a ser o melhor caminho, porque na estrada, cada segundo de distracção pode ser o último capítulo de alguém.





































