A ESPERTEZA QUE FURA FILAS
Minha Kianda, cidade que abraça mundos e sotaques, vai-se tornando palco de um fenómeno curioso, quase teatral: o desrespeito organizado. Aqui, cresce a tendência de inverter a ordem natural das coisas, como se chegar por último fosse um passaporte automático para a prioridade.
Há muito que observo este retrato na capital angolana. Nas filas dos transportes públicos e privados, nos bancos e em diversas instituições, esse ritual diário onde a paciência deveria ser regra, instala-se, cada vez mais, a arte de furar a ordem. Uns madrugam, outros chegam depois. Até aqui, tudo normal. O problema começa quando alguém decide reescrever a lógica: transformar quem chegou primeiro em figurante.
E então surgem os discursos, quase ensaiados:
“Por favor, estou a sentir-me mal, não posso ficar muito tempo em pé…”
“Jovem, tenho uma emergência, preciso de ser atendido rapidamente…”
“Senhores, estou grávida, tenho prioridade…”
Há quem use a necessidade como argumento real e isso deve ser respeitado, mas há também quem transforme a excepção em regra, numa espécie de teatro social onde vale tudo para avançar.
O mais inquietante? A simulação.
Há relatos de pessoas que fingem doenças, que encenam dores, que adoptam limitações inexistentes. Outros recorrem a estratégias ainda mais elaboradas: crianças “emprestadas” para garantir prioridade, choros provocados, histórias dramatizadas ao limite da credibilidade.
E depois há o clássico:
“Eu já estava aqui, só fui ali à cantina…”
“Deixa-me só encostar aqui, depois volto ao meu lugar…”
A boa-fé de quem cede espaço transforma-se, no fim, em injustiça e assim se quebra, silenciosamente, o contrato social.
No momento do atendimento, o cenário intensifica-se: empurrões, ultrapassagens, olhares de desafio. Alguns avançam com a confiança de quem acredita que ser esperto é virtude. Os outros os que respeitam, ficam a assistir ao espectáculo. No calão popular, ficam no “show”.
Mas que espectáculo é este?
Que sociedade estamos a construir quando a esperteza vale mais do que a ética?
Os mais novos observam, aprendem e reproduzem.
Pouco a pouco, a inversão de valores deixa de ser excepção e passa a norma. A desorganização instala-se como hábito, quase invisível, mas profundamente corrosivo.
É urgente mudar o paradigma.
A educação começa em casa, mas não termina aí. Deve ser reforçada na escola, nas instituições, na convivência diária. Respeitar a ordem não é apenas uma questão de disciplina, é uma questão de carácter.
Numa cidade onde tantos lutam diariamente para sobreviver, não podemos permitir que a astúcia mal-intencionada se sobreponha ao respeito mútuo.
A minha vénia vai para os que madrugam quando sabem que têm urgência, para os que chegam e respeitam; para os que esperam a sua vez, mesmo quando o tempo aperta, para os que mantêm a educação de berço, esse património invisível, mas valioso.
Uma sociedade precisa de regras, algumas estão escritas, outras vivem no comportamento colectivo. Não podemos depender sempre da coerção para funcionar. O respeito não deve ser imposto, deve ser praticado, porque, no fim, o que fica não são apenas filas desorganizadas, ficam conflitos, discussões, pequenas rupturas sociais que podiam ser evitadas.
E ficam também, ironicamente, os “artistas” da fraude, que riem dos que cumprem, mas talvez esteja na hora de invertermos novamente a frase:
Não são os últimos que devem ser os primeiros,
são os justos que não podem continuar a ser os últimos.
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