“QUANDO A CHUVA ANTECIPA A VISITA”
Entre textos e mais textos, naquela rotina silenciosa de quem vasculha o mundo a partir de uma redacção, deparei-me com uma manchete simples, mas carregada de presságios: o Santo Padre foi recebido com chuva em Argel.
Não li tudo de imediato, nem precisei.
O corpo reagiu antes da mente, um arrepio, um silêncio interno, um medo que não pedi licença para entrar, porque, cá dentro, a notícia não era sobre Argel, era sobre nós.
Era sobre Angola, era sobre Luanda, era sobre o que temos vivido.
A chuva, que deveria ser bênção, tem chegado como prova. Em alguns bairros de Luanda, ela já não é apenas água, é trauma, é perda, é noites sem sono. Em Benguela, as imagens falam mais alto do que qualquer reportagem: casas feridas, ruas desfeitas, vidas interrompidas.
E então pensei…e se for assim também connosco?
E se recebermos o Santo Padre sob o peso de um céu carregado?
Não seria apenas coincidência climática, seria simbólico, profundo, até inquietante, porque há algo de espiritual na forma como as coisas acontecem.
Lembrei-me do letreiro do Icolo e Bengo. O vento não pediu autorização: levou metade da mensagem. Ficou apenas “Bem”, como se até a própria terra estivesse a falar por sinais incompletos, como se estivéssemos a viver uma recepção interrompida… uma preparação inacabada.
E eu pergunto-me, não como jornalista, mas como homem:
Como será a nossa recepção?
Não falo de protocolos, nem de palcos, nem de discursos ensaiados, falo da recepção invisível, aquela que não aparece nas câmaras.
Como estará o coração da cidade? porque, às vezes, queremos receber grandes homens de Deus, mas esquecemo-nos de alinhar o espírito, queremos a visita, mas não preparamos o ambiente; esperamos a bênção, mas ignoramos os sinais.
Confesso: houve um momento em que o medo me paralisou. Duas horas sem beber água, não era sede física, era inquietação, era como se a chuva lá fora estivesse a cair também dentro de mim.
Mas depois… veio um entendimento, e se a chuva não for ameaça? e se for anúncio?
Na Bíblia, a chuva muitas vezes precede a visita de Deus, ela limpa, prepara, quebra resistências. Antes da glória, vem a água, antes da manifestação, vem o abalo.
Talvez não devamos temer a chuva.
Talvez devamos perguntar: o que ela está a preparar? porque, no fundo, a verdadeira recepção não será feita com tapetes vermelhos, mas com corações rendidos e se o céu decidir abrir-se naquele dia, que não seja motivo de pânico, mas de discernimento.
Que a chuva não nos encontre despreparados por fora… nem vazios por dentro, porque o maior perigo não é a tempestade que cai sobre a cidade, é a ausência de Deus dentro dela.
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