ESCURIDÃO E MEDO: FALTA DE ENERGIA ELÉCTRICA ALIMENTA ONDA DE ASSALTOS NA VILA LIBERDADE NO ZANGO 1

A ausência prolongada de energia eléctrica na Vila Liberdade, localizada no Zango 1, município de Calumbo, província do Icolo e Bengo, está a transformar a rotina dos moradores num cenário de medo constante, com o registo de pelo menos oito assaltos em apenas quatro dias, expondo fragilidades estruturais e ausência de respostas eficazes por parte das autoridades.

Imagem: DR Ponto de Situação

Na Vila Liberdade, a noite deixou de ser apenas ausência de luz, tornou-se um território de insegurança. Sem iluminação pública e com ruas mergulhadas na escuridão, os moradores denunciam um aumento alarmante de assaltos a residências, tanto ocupadas como desabitadas, numa sequência que revela um padrão preocupante de vulnerabilidade social e institucional.

Entre os dias 29 de Março e 1 de Abril de 2026, foram registados oito assaltos, dos quais três ocorreram em residências habitadas e cinco em imóveis sem ocupantes. Os números, ainda que não oficiais, resultam de um levantamento feito pelos próprios moradores, que afirmam não ver uma presença regular das forças de segurança na zona.

Para Genoveva Costa, de 31 anos, vítima recente de assalto, o sentimento é de abandono. “Como é possível um condomínio aberto não ter energia? Aqui há assaltos quase todos os dias. Só na semana passada, duas casas do quarteirão 3 foram invadidas”, lamentou, apelando a uma intervenção urgente das autoridades.

O mesmo cenário é descrito por Bernarda Tomás, que admite ponderar abandonar a área. “Estamos a viver muito mal. Sem água potável, sem energia e agora com assaltos constantes. A escuridão tem ajudado estes jovens a cometer crimes. Desde que os guardas foram deslocados para a ala norte, a situação piorou”, afirmou.

A insegurança não se limita aos assaltos. A mobilidade nocturna também foi afectada. João Mateus da Silva denunciou a exploração por parte de motoqueiros, que chegam a cobrar até mil kwanzas por trajectos curtos durante a noite, justificando o risco acrescido pela falta de iluminação. “Aqui ao lado, no bairro Nguimbi, há energia. Por que razão a nossa vila continua às escuras?”, questionou.

A situação levanta dúvidas sobre o papel da Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade, cujos técnicos, segundo os moradores, já terão visitado a área, sem que até ao momento tenham sido iniciados trabalhos concretos, como cadastramento, instalação de postes ou ligação à rede eléctrica.

Especialistas em segurança urbana alertam que a ausência de iluminação pública é um dos principais factores que contribuem para o aumento da criminalidade em zonas urbanas periféricas. A escuridão reduz a visibilidade, dificulta a identificação de suspeitos e facilita a acção de grupos organizados ou oportunistas.

Além disso, o caso da Vila Liberdade evidencia um problema mais amplo: a expansão urbana sem o devido acompanhamento em infra-estruturas básicas. A criação de zonas habitacionais sem acesso à energia, água e segurança levanta questões sobre planeamento urbano e responsabilidade institucional.

Enquanto isso, os moradores continuam a viver entre o medo e a incerteza. “Se ficares dois dias fora de casa, podes perder tudo”, resumiu um residente, reflectindo o sentimento colectivo de uma comunidade que vê a criminalidade tornar-se parte da rotina.

A falta de energia, neste contexto, deixa de ser apenas uma carência técnica, transforma-se num catalisador de insegurança, que abre espaço para o crescimento da criminalidade. 

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