DENÚNCIAS E INVESTIGAÇÃO EM CURSO:  ESQUEMA DE VIATURAS POR APLICATIVO FAZ MAIS DE 90 VÍTIMAS

Mais de 90 cidadãos denunciam ter sido enganados por uma empresa de gestão de viaturas por aplicativo, acusada de vender ilegalmente carros confiados pelos proprietários. A Polícia Nacional já recuperou 30 viaturas, enquanto as vítimas exigem justiça e responsabilização dos envolvidos.

Imagem: DR Ponto de Situação

O que começou como uma oportunidade de rendimento transformou-se num dos casos mais preocupantes de burla envolvendo plataformas digitais em Angola, sob promessa de pagamentos mensais.

O suposto desvio e venda de automóveis terá começado desde 2022.

A Polícia Nacional, através da Direcção de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP), confirmou o facto, e garante ter recuperado 30 viaturas, num esquema que ultrapassa uma centena, alguns dos quais já localizados em diferentes províncias e até fora do país.

Entre dor e indignação, as vítimas começam agora a dar rosto ao caso

Eunice Magalhães conta que tudo começou com um anúncio nas redes sociais. “Aderi depois de ver um vídeo no TikTok. Fomos até à empresa, no Zango, e assinámos contrato. No início pagavam, mas depois simplesmente pararam. O mais chocante foi descobrir que os GPS dos carros estavam a ser trocados. Quando tentávamos localizar os nossos veículos, encontrávamos outros carros”, relatou.

A revolta é ainda maior para Marta Matias, que perdeu quatro viaturas.

 “É muito doloroso. Entregámos os carros com confiança, para garantir o sustento da família. Hoje sabemos que foram vendidos. Um deles já passou por várias pessoas e dizem que está no Congo. Como é possível?”, questiona, visivelmente abalada.

Catarina, outra lesada, vive um drama semelhante, agravado por uma dívida bancária ainda em curso. “O carro foi adquirido com crédito. Nem terminámos de pagar e já não o temos. Fomos à empresa e descobrimos que tinha sido vendido. Estamos a pagar por algo que já não existe nas nossas mãos”, lamentou.

As suspeitas de uma rede organizada ganham força entre os lesados. Manuel, nome fictício, levanta dúvidas sobre a dimensão do esquema.

O interlocutor, cogita que o principal suspeito não está sozinho no esquema, pois, alega existir carros em Cabinda, Malanje e até fora de Angola. “Como é que tantos carros foram vendidos com documentos? Alguém facilitou esses processos”, denunciou.

Perante a gravidade das acusações, o porta-voz da DIIP, Intendente Quintino Ferreira, assegurou que as investigações continuam.

 “A Polícia Nacional está a seguir todos os trâmites legais para responsabilizar não apenas os autores directos, mas também todos aqueles que colaboraram ou adquiriram viaturas provenientes deste esquema ilícito”, afirmou, garantindo que o processo não ficará impune.

O principal suspeito, identificado como Januário Joaquim Francisco, é apontado como o mentor do esquema, tendo utilizado uma suposta empresa de gestão de viaturas para ganhar a confiança dos proprietários. O modelo consistia na assinatura de contratos que prometiam rendimentos mensais, mas que, na prática, serviram para facilitar o desaparecimento dos bens.

O caso expõe fragilidades preocupantes, não apenas na fiscalização de plataformas digitais, mas também nos mecanismos de registo e transmissão de propriedade automóvel.

Enquanto isso, dezenas de famílias continuam a viver um pesadelo marcado por perdas financeiras, frustração e incerteza.

“Não queremos só os carros de volta, queremos justiça”, resumiu uma das vítimas, traduzindo o sentimento colectivo de quem viu a confiança ser transformada em prejuízo.

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