ENTRE CONHECIMENTO E DEPENDÊNCIA: O IMPACTO DAS REDES SOCIAIS NA FORMAÇÃO ACADÉMICA E COMPORTAMENTO JUVENIL EM ANGOLA
O uso crescente das redes sociais como ferramenta de apoio académico entre jovens angolanos está a gerar um debate cada vez mais intenso: se, por um lado, facilitam o acesso à informação e oportunidades, por outro, levantam preocupações sobre a perda de autonomia intelectual, vício digital e riscos sociais, conforme revelam depoimentos recolhidos pelo Portal Ponto de Situação.
Num contexto em que o acesso à internet se expande progressivamente em Angola, as redes sociais deixaram de ser apenas plataformas de entretenimento para se tornarem instrumentos activos no processo de aprendizagem e inserção profissional. No entanto, esta transformação traz consigo uma dualidade que divide opiniões entre estudantes, profissionais e membros da sociedade.
Para Gabi, estudante de informática de 19 anos, as redes sociais representam uma ferramenta útil, mas com efeitos colaterais preocupantes. Segundo ele, muitos estudantes passaram a depender excessivamente destas plataformas, limitando-se a copiar conteúdos prontos, sem desenvolver pensamento crítico ou capacidades próprias. “Ajuda, mas também torna os alunos preguiçosos”, resumiu.
Uma perspectiva diferente foi apresentada por Orlanda Pina Gouveia de Castro, actualmente empregada, que reconhece nas redes sociais um papel determinante na sua trajectória profissional.
Sem domínio de determinado conteúdo, recorreu a estas plataformas para obter ajuda em tempo real, o que lhe permitiu garantir uma oportunidade de emprego. O caso evidencia como o acesso imediato à informação pode influenciar decisões com impacto directo na vida económica dos cidadãos.
Ainda assim, Orlanda reconhece os riscos associados ao uso inadequado dessas ferramentas, sobretudo quando utilizadas para fins negativos, como a disseminação de conteúdos ofensivos ou comportamentos que visam apenas a obtenção de popularidade virtual.

Numa abordagem mais crítica, Cireneu Kiluanji, docente e membro das Testemunhas de Jeová, alertou para os impactos morais e espirituais do uso excessivo das redes sociais. Para ele, ‘a dependência digital pode desviar valores e contribuir para comportamentos prejudiciais à sociedade’. A sua visão reflecte uma preocupação crescente em sectores mais conservadores quanto à influência cultural e ética das plataformas digitais.
A dimensão social e comportamental também é destacada por Edna Cacolo, que chama atenção para o tipo de conteúdos partilhados por alguns jovens, especialmente mulheres. Segundo ela, determinadas publicações podem incentivar práticas consideradas inadequadas, levantando o debate sobre exposição, valores e responsabilidade individual no ambiente digital.
Por outro lado, Nazaria José Luís adopta uma posição mais equilibrada, defendendo que o impacto das redes sociais depende essencialmente do uso que cada indivíduo faz delas. “Tudo o que publicamos hoje terá reflexos no futuro”, alertou, sublinhando a importância da consciência digital.
Do ponto de vista técnico, o engenheiro informático Adolfo Gonçalves reforçou esta dualidade. Ele destacou vantagens claras, como a comunicação instantânea, o acesso à informação e oportunidades de negócio, mas, alertou para riscos como o vício, cyberbullying, ansiedade e violação de privacidade. Segundo o especialista, o uso consciente é o único caminho para maximizar benefícios e reduzir danos.
Dados observacionais indicam que muitos jovens passam várias horas por dia conectados, o que levanta preocupações sobre produtividade, saúde mental e relações sociais. A exposição constante a padrões irreais de vida, amplamente difundidos nas redes, contribui para sentimentos de inadequação, ansiedade e comparação social.
Além disso, a rápida disseminação de informações falsas (fake news) tem sido apontada como um dos maiores desafios da era digital, influenciando opiniões públicas e, em alguns casos, decisões colectivas.
As discussões procuram não apenas celebrar a evolução digital, mas promover uma utilização mais responsável e consciente das plataformas.
Há também, aqueles que defendem a necessidade de reforçar a educação digital nas escolas e comunidades, incentivando práticas como a verificação de fontes, protecção de dados pessoais e equilíbrio entre o mundo virtual e a vida real.
No meio deste cenário, uma conclusão torna-se evidente: as redes sociais não são, por si só, o problema, mas sim a forma como são utilizadas. Entre o potencial de transformação e os riscos associados, o futuro digital da juventude angolana dependerá, em grande medida, da capacidade de encontrar esse equilíbrio.
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