“ESTAMOS MAL”: VOZES DE LUANDA EXPÕEM DIFICULDADES E COBRAM RESPOSTAS ESTRUTURAIS PARA PREVENIR ÀS CHEIAS
As chuvas intensas que voltaram a atingir Luanda não trouxeram apenas destruição material e vítimas, mas também amplificaram um grito antigo da população: o reforço de políticas públicas eficazes para prevenir e responder às cheias.
Entre perdas, medo e indignação, moradores de vários bairros relatam uma realidade marcada pela vulnerabilidade.
O mais recente episódio de chuvas, ocorrido na noite de sábado (11), deixou um rasto de destruição em vários municípios da capital.
Segundo o Centro de Coordenação Operacional Provincial (CCOP), há registo de pelo menos uma vítima mortal, duas crianças desaparecidas e centenas de residências inundadas, além da queda de infraestruturas eléctricas e dezenas de árvores.
Para além dos números, são as vozes dos cidadãos que traduzem a dimensão humana da tragédia.
No Benfica, Armando Paiva descreve um ambiente de tensão constante, onde a chuva deixou de ser apenas um fenómeno natural para se tornar um motivo de angústia coletiva.
“Muitos bairros estão a viver com medo. As pessoas já nem pedem mais chuva, estão a orar para que chegue o cacimbo. Dou graças por não ter sido afectado directamente, mas há famílias ao relento, sem nada” frisou.
No Cazenga, Ana Paula fala com dor e revolta ao relatar a situação da própria família.
“A minha mãe vive na Serração e não foi poupada. A água entrou, levou coisas… o Governo precisa ajudar essas famílias. Há zonas muito críticas onde as pessoas vivem esquecidas”, disse.
Já Baptista de Jesus, morador próximo do Golfe 1, vai mais longe e aponta directamente para a responsabilidade do Estado, denunciando o que considera ser uma resposta reativa e insuficiente.
“O Estado não pode só aparecer quando chove. Essas famílias vivem em zonas de risco há anos. Aqui atrás, na Madeira, há áreas onde nem se devia passar, quanto mais construir. A chuva foi pesada, mas o problema já existia”, relatou.
Num tom mais duro, Baptista expõe a fragilidade estrutural da cidade e o drama silencioso de quem perdeu tudo.
“Estamos mal. Há famílias, neste momento, a procurar casa de renda porque perderam tudo. Quantos mais têm que sofrer para se fazer alguma coisa? Melhorar as condições de habitabilidade não é só tarefa do Governo Provincial, é também do Governo central”, apontou.

Os dados confirmam a gravidade do cenário. Em Cacuaco, foram registadas cerca de 100 residências inundadas e uma vítima mortal. No Hoji Ya Henda, bairros como Madeira, KM14 e Farol das Lagostas somam 180 casas afectadas, além de deslizamentos de terra e desaparecimentos. No Rangel, Cazenga, Ingombota e Sambizanga, os prejuízos também são significativos, com habitações invadidas pelas águas e infraestruturas públicas danificadas.
Para muitos especialistas, o problema vai além da intensidade das chuvas. Trata-se de uma crise estrutural ligada à má planificação urbana, à ocupação desordenada de solos e à ausência de sistemas eficazes de drenagem. Em várias zonas, as construções precárias e a falta de fiscalização transformam bairros inteiros em áreas de alto risco.
Apesar dos alertas recorrentes, as soluções continuam a ser, na maior parte dos casos, pontuais e emergenciais. A população, por sua vez, clama por medidas concretas e duradouras, desde o reassentamento de famílias em zonas seguras até à requalificação das áreas mais vulneráveis.
Entretanto, o Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (INAMET) prevê a continuação de chuvas moderadas nos próximos dias em Luanda e noutras províncias, o que agrava ainda mais a preocupação dos moradores.
De salientar que, nos últimos dias, o Governador de Luanda e distintos administradores têm estado no terreno, a acompanhar de perto as consequências do fenómeno na capital do país.
Depois de ter visitado vários municípios de Luanda, o Governador Provincial, Luís Manuel da Fonseca Nunes, esteve, no domingo, no município da Samba, onde, na manhã de 12 de Abril, percorreu a Estrada Direita da Samba, via principal que liga os municípios da Maianga e da Samba, com o objectivo de constatar o impacto das chuvas intensas registadas no dia 11 de Abril.
No local, o Governador orientou a limpeza urgente das valas de drenagem, actualmente obstruídas pelo acúmulo de resíduos sólidos arrastados pela corrente das águas pluviais.
Participaram da visita de constatação o vice-governador para os Serviços Técnicos e Infra-estruturas, Calunga Francisco Zage Quissanga, os administradores municipais da Samba e da Maianga, directores provinciais, bem como responsáveis da UTGSL, ELISAL e ENCIB.
Ao que tudo indica, o trabalho de campo deverá prosseguir nos próximos dias, numa tentativa de reforçar a resposta às zonas mais afectadas.
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