ENTRE A FOME E A CENSURA: JORNALISTA DENUNCIA FRAGILIDADE DA LIBERDADE DE IMPRENSA NO CUANZA NORTE

O jornalista António Domingos, correspondente da DW e secretário provincial do Sindicato dos Jornalistas no Cuanza Norte, denunciou um cenário preocupante no exercício da profissão na região, marcado por baixos salários, autocensura e pressões institucionais.

Imagem: DR Ponto de Situação

A realidade do jornalismo no Cuanza Norte continua a ser marcada por desafios estruturais que comprometem a independência editorial e a qualidade da informação.

Para António Domingos, também membro da direcção do MISA Angola, a precariedade salarial tem levado muitos profissionais a cederem a práticas que fragilizam a ética jornalística.

Segundo o jornalista, a baixa remuneração nos órgãos locais cria um ambiente propício à dependência das fontes, fenómeno que descreve como a transformação de jornalistas em “cipaios”. “Há profissionais que veneram as fontes por causa da fome e dos subsídios insuficientes”, lamentou.

Além das dificuldades económicas, Domingos denunciou a existência de censura subtil dentro das redacções. De acordo com o profissional, os cortes editoriais nem sempre são explícitos, sendo frequentemente aplicados de forma dissimulada.

“Há quem venha com uma filosofia tão bem construída que o jornalista nem se apercebe de que está a ser censurado”, explicou, alertando para o crescimento da autocensura como consequência directa dessas práticas.

O jornalista reforçou que o papel da comunicação social deve limitar-se à divulgação rigorosa e isenta dos factos, mas admite que interesses ocultos e pressões externas têm distorcido essa missão. “Muitos querem protagonismo sem aparecer e recorrem a estratégias para manipular conteúdos, transformando o jornalismo em propaganda”, afirmou. 

Ao recordar o início da sua carreira, António Domingos destacou que a postura firme e ética que adoptou foi influenciada pelos conselhos familiares, que sempre consideraram o jornalismo uma profissão de risco. Essa percepção, segundo ele, confirmou-se ao longo dos anos, com relatos de perseguições e até detenções de profissionais na província.

Domingos cita o período de governação de figuras como Manuel Pedro Pacavira e Henrique André Júnior como momentos em que se consolidaram práticas de controlo e alinhamento editorial. “Havia uma cultura de seguir orientações políticas. Quem fugisse dessa linha enfrentava consequências”, recordou, acrescentando que jornalistas chegaram a ser presos por exercerem a profissão com independência.

O profissional revelou também ter sido chamado a responder por conteúdos publicados quando ainda conciliava a actividade jornalística com a vida académica, o que demonstrou, segundo ele, o nível de pressão exercido sobre os profissionais.

Apesar do cenário adverso, António Domingos reconheceu o papel determinante do MISA Angola e do Sindicato dos Jornalistas na defesa da liberdade de imprensa. Segundo afirmou, estas organizações têm sido fundamentais para proteger profissionais, associados ou não, e garantir condições mínimas para o exercício da actividade.

No entanto, alertou que a liberdade de imprensa no Cuanza Norte continua fragilizada. “A liberdade de imprensa anda nua”, afirmou, atribuindo às autoridades locais a responsabilidade pelas limitações impostas ao sector. Para Domingos, o ambiente ainda é de desconfiança e vigilância, onde o exercício do jornalismo independente é frequentemente visto como afronta.

“Quem trabalha bem é questionado. A liberdade de imprensa parece ter chegado ontem no Cuanza Norte”, concluiu, sublinhando que, apesar das perseguições enfrentadas ao longo da sua carreira, nunca foi formalmente constituído arguido, embora tenha vivido sob constante pressão.

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