‘‘SEM FISCALIZAÇÃO A RELIGIÃO PODE TORNAR-SE INSTRUMENTO DE DESORDEM SOCIAL’’
A proposta de alteração da Lei sobre a Liberdade de Religião e de Culto reacendeu o debate sobre o papel das igrejas em Angola. Em entrevista, o psicólogo e académico Carlinhos Zassala analisou os impactos da proliferação de igrejas, criticou a falta de fiscalização e alertou para desvios que, segundo afirmou, colocam em causa os valores sociais.
ENTREVISTA
Ponto de Sitaução: Há quem diga que o professor não gosta das igrejas. Como reage a essa afirmação?
Carlinhos Zassala: Não é verdade que eu não goste das igrejas. Sou filho de pastor da Igreja Baptista, cresci dentro de um ambiente religioso. O que eu critico não é a igreja em si, mas sim os comportamentos e os impactos negativos provocados por determinados ensinamentos que, hoje, estão a desvirtuar a nossa sociedade.
Ps: Que análise faz dos ensinamentos e da postura de algumas igrejas actualmente?
CZ: Hoje verificamos comportamentos anormais que resultam de ensinamentos distorcidos. Há também responsabilidade das autoridades, que muitas vezes compactuam com falsas profecias e líderes religiosos que não deveriam estar à frente de comunidades. A igreja deve ser reserva moral da sociedade, mas em muitos casos já não cumpre esse papel.
Ps: Qual deve ser a posição do Governo face ao surgimento constante de novas igrejas?
CZ: A posição já está definida na Lei n.º 12/19. O problema não é a ausência de legislação, mas sim o seu incumprimento. Se a lei fosse aplicada com rigor, não teríamos tantos desvios nem tantos problemas sociais ligados a práticas religiosas.
Ps: O que estabelece, na prática, essa lei para igrejas e líderes religiosos?
CZ: A lei define claramente a formação que um pastor deve ter, os locais apropriados para o exercício do culto e os comportamentos que são proibidos. Não se pode continuar a realizar cultos em qualquer espaço, como quintais ou ruas, perturbando a vida dos cidadãos. Também estabelece limites éticos para evitar práticas que destruam famílias, porque a família é a base da sociedade.
Ps: O que as autoridades devem fazer diante de práticas que contrariam esses princípios?
CZ: Devem fazer cumprir a lei. Um país onde as leis não são respeitadas caminha para a desordem. Angola é um Estado de direito, e isso significa que ninguém está acima da lei, independentemente da posição que ocupa.
Ps: Sendo Angola um Estado laico, isso não abre espaço para a criação livre de igrejas?
CZ: A laicidade é muitas vezes mal interpretada. Significa que o Estado não adopta uma religião oficial, mas não significa ausência de regras. Existe liberdade religiosa, sim, mas essa liberdade não pode servir de justificativo para práticas que atentem contra a moral, a cultura e a convivência social.
Ps: Há críticas de que algumas igrejas estão mais focadas em dinheiro do que na missão espiritual. Concorda?
CZ: Infelizmente, sim. Muitas igrejas deixaram de cumprir a sua missão social. Historicamente, igrejas como a Igreja Católica, a Igreja Baptista e a Igreja Metodista contribuíram para a educação, saúde e desenvolvimento. Hoje, algumas comunidades funcionam quase como empresas, focadas em dízimos e ofertas, sem retorno social.
Ps: O Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos (INAR) tem cumprido o seu papel?
CZ: Não tem cumprido como deveria. Falta fiscalização efectiva. Há denúncias graves que não têm seguimento, e isso cria um ambiente de impunidade. Sem controlo, abre-se espaço para abusos e práticas ilegais.





































