NO AZUL E BRANCO: UMA LIÇÃO EM MOVIMENTO

Manhã de quinta-feira, 26 de Março. Uma viagem de azul e branco, carregada de pequenas lições que pedem reflexão colectiva e, quem sabe, uma mudança de atitude: neste mundo, ninguém tem tudo. Todos necessitam ou necessitarão, da ajuda de alguém, a qualquer momento.

Imagem: DR Ponto de Situação

Eram por volta das 7h00 quando cheguei à paragem de táxi. Ouvi o cobrador anunciar o destino da curta viagem. Subimos e aguardámos que o meio começasse a circular. Como de costume, estava cheio. O cobrador, ou “gerente”, como se diz na banda, repetia, quase como um refrão matinal, a necessidade de todos terem “dinheiro trocado”, pois não dispunha de valores para dar troco. Todos concordaram.

A viagem começou. Cada passageiro tecia os seus comentários. Eu, entre o silêncio e a escuta atenta, ia absorvendo cada palavra daquela manhã e também dialogava comigo mesmo.

A meio do trajecto, o gerente iniciou a cobrança. Infelizmente, um dos jovens explicou que havia deixado cair uma moeda de 50 kwanzas e, por isso, tinha apenas 250. Pediu compreensão.

-Não posso ajudar. Devia ter avisado antes de sairmos da paragem. Por favor, pague o valor completo, respondeu o gerente.

O jovem insistiu que não tinha mais e que, se soubesse, teria informado antes. Foi então que algo bonito aconteceu: alguns passageiros começaram a mexer nos bolsos. Em poucos instantes, duas senhoras mostraram-se disponíveis para ajudar, mas um outro passageiro antecipou-se e resolveu a situação.

Até ali, tudo bem.

A partir daí, o táxi transformou-se numa espécie de assembleia improvisada. A maioria dos passageiros passou a falar sobre a importância de ajudar o próximo.

Um deles contou que, dias antes, ele e os amigos pediram boleia a um senhor numa paragem. O pedido foi recusado. Sem alternativa, seguiram a pé. Ironia do destino: mais à frente, encontraram o mesmo senhor com a viatura avariada.

-Meus ndengues, ajudem aqui o vosso kota, para a viatura pegar, contou o passageiro, como quem lança uma notícia de última hora.

Desta vez, foram os jovens a recusar. Não por maldade, mas por memória fresca.

Logo depois, outro passageiro atirou, sem rodeios, ao cobrador:

-Vocês raramente ajudam as pessoas, mas quando as vossas viaturas avariam, pedem sempre ajuda. Está na hora de mudar de atitude.

A conversa fluía como trânsito em hora de ponta, intensa, cheia de desvios e reflexões. Até que uma senhora trouxe calma e profundidade ao debate:

- Neste mundo, ninguém tem tudo. Todos precisam ou vão precisar de alguém.

E contou a história de um vizinho que, quando não tinha viatura, pedia sempre ajuda. Assim que conseguiu a sua, passou a ignorar os outros. Chegava ao ponto de fingir avarias ou baixar a cabeça para não dar boleia a conhecidos. Um dia, a sua viatura avariou e precisou de uma chave emprestada. O vizinho recusou.

Uma outra senhora, com cerca de 50 anos, deixou um conselho que ficou na memória de quem acompanhava com atenção o diálogo naquele “Azul e Branco”: não devemos ignorar o próximo. Devemos ajudar os nossos semelhantes, porque não sabemos o que o amanhã nos reserva. Hoje, ninguém é completamente auto-suficiente. Há sempre algo que nos falta e, é aí que entra o outro. A unidade deve ser a nossa marca.

Entre histórias e reflexões, anunciei ao cobrador que desceria na próxima paragem. Ele acenou em sinal de entendimento. Chegámos. Desci. A viagem continuou para eles.

Para mim, ficou mais uma lição no “Azul e Branco”.

Ajudar é importante, respeitar é essencial e não esquecer o bem que nos fazem, pois é um acto de carácter. Existe quem se esqueça de que já precisou de alguém  e que um dia voltará a precisar.

Mas há um detalhe que faz toda a diferença: o bem deve ser feito de coração aberto, sem contabilidade emocional, porque a maior recompensa não está no retorno, mas naquele instante silencioso em que alguém volta a sorrir graças ao nosso gesto.

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