BOATOS SOBRE “TOQUES MISTERIOSOS” LEVAM À DETENÇÃO DE 17 CIDADÃOS

17 pessoas encontram-se detidas por alegado envolvimento na divulgação de conteúdos falsos sobre o suposto desaparecimento de órgãos genitais masculinos e em actos associados à desordem pública, numa altura em que o SIC alerta para os perigos da desinformação.

Imagem: DR

O aumento de relatos sobre alegados desaparecimentos de órgãos genitais continua a gerar medo e tensão social em várias províncias angolanas, levando cidadãos a exigir maior intervenção das autoridades.

Nas últimas semanas, vídeos e testemunhos disseminados nas redes sociais intensificaram o clima de insegurança entre a população, sobretudo em Luanda, Lunda-Norte, Lunda-Sul, Huambo e Moxico.

Em muitos relatos, cidadãos afirmam ter sentido alterações físicas nos órgãos genitais após alegados contactos suspeitos, situação que alguns atribuem a práticas místicas ou rituais.

A preocupação tem alimentado debates públicos e reacções populares, com vários cidadãos a defenderem maior controlo migratório e respostas mais firmes por parte do Estado.

Dona Efigénia, de 37 anos, considera que o fenómeno deve ser tratado com seriedade pelas autoridades.

“O Governo precisa pôr ordem no país. Há muitas coisas misteriosas a acontecer e a população está preocupada”, afirmou.

Também Isabel Pascoal, moradora do Zango 2, acredita que os casos não podem ser ignorados, alegando que um familiar terá enfrentado sintomas semelhantes após contacto com um desconhecido.

“Isso não é imaginação. Tivemos de recorrer à oração porque acreditamos que é algo espiritual”, declarou.

Já Adérito Gouveia Luís questiona a demora das autoridades em esclarecer a situação, defendendo que o medo colectivo demonstra que o assunto merece atenção institucional.

Por outro lado, André Soquessa considera que se trata de uma fase que exige cautela e prudência e sublinha não acreditar na existência do fenómeno.

“É preciso ter muito cuidado. Eu não acredito nisso”, disse.

ESCLARECIMENTO DO SIC

Contudo, o Serviço de Investigação Criminal (SIC) veio a público esclarecer que os supostos desaparecimentos de órgãos genitais não têm qualquer comprovação médica.

Em comunicado assinado pelo director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do SIC, Manuel Halaiwa, a instituição informou que os casos analisados foram submetidos a perícias da Direcção Nacional de Medicina Legal em várias províncias do país.

Segundo o SIC, os exames realizados por equipas técnicas especializadas não confirmaram qualquer desaparecimento físico de órgãos genitais, classificando os conteúdos divulgados nas redes sociais como falsos e alarmistas.

O Serviço de Investigação Criminal alertou ainda que a propagação destas informações provocou actos de violência, agressões físicas e linchamentos em algumas localidades. Na província da Lunda-Norte, um cidadão perdeu a vida na sequência destes episódios.

O SIC informou igualmente que 17 cidadãos estão sob investigação por envolvimento na divulgação de conteúdos falsos e em actos associados à desordem pública.

Para os cidadãos que insistirem na propagação deste tipo de conteúdos, o órgão afecto ao Ministério do Interior advertiu que poderão ser responsabilizados criminalmente e apela à mudança de comportamento.

As autoridades apelam à serenidade da população e defendem a necessidade dos cidadãos recorrerem às instituições competentes antes de divulgarem conteúdos sem confirmação oficial.

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