ABUSO SEXUAL DE MENORES: UMA FERIDA ABERTA QUE EXIGE LUTA COLECTIVA
Dói. Dói ouvir, ler e relatar histórias de abuso sexual contra menores. Dói ainda mais perceber que estas narrativas se repetem com uma frequência assustadora, deixando marcas profundas nas vítimas, nas famílias e numa sociedade que, demasiadas vezes, escolhe fechar os olhos.
Quase todos os dias, nós, profissionais do portal Ponto de Situação, divulgamos casos desta natureza. Crimes cometidos, na maioria das vezes, por indivíduos do próprio seio familiar ou por pessoas próximas das vítimas: pais, tios, irmãos, avós, vizinhos, professores, líderes religiosos e outros. O perigo, quase sempre, está dentro de casa ou ao virar da esquina.
Perante este cenário alarmante, discutir apenas as causas já não basta. É urgente olhar para esta problemática com profundidade, coragem e frontalidade. Dvemos assumir, que o combate ao abuso sexual de menores deve ser uma luta comum, sem desculpas culturais, sociais ou institucionais.
Em Angola, há milhares de crianças a viver com sequelas físicas, emocionais e psicológicas, resultado da acção de indivíduos que, em vez de se relacionarem com mulheres adultas, escolhem violentar seres indefesos. Um caso recente, ocorrido na província de Malanje, deixou-me em choque: um ancião abusou sexualmente da neta de apenas 2 anos de idade. Um facto que revolta, indigna e expõe o nível de degradação moral que não pode ser normalizado.
Um dos maiores aliados do abuso sexual é o silêncio. O Medo, vergonha, dependência económica e a obsessão com a chamada “honra da família” continuam a esconder inúmeros crimes.
Muitas vezes, a vítima é forçada a conviver diariamente com o agressor, enquanto a sociedade relativiza o crime com frases perigosas como “é coisa de família”. No fim, quem paga o preço alto é a criança, violentada duas vezes: pelo agressor e pela indiferença colectiva.
A ausência de educação sexual básica continua a ser um problema estrutural na sociedade angolana. Quando a criança não conhece o seu corpo, os seus limites e os seus direitos, não sabe identificar o abuso nem denunciar o que lhe acontece.
A ignorância cria terreno fértil para o agressor agir sem resistência e sem ruído. Educar não é incentivar, é proteger. Educação sexual adequada à idade é uma das primeiras linhas de defesa contra este mal que destrói muitas crianças.
Onde a justiça é lenta, o crime ganha ritmo, por isso, os processos que não avançam, denúncias ignoradas, agressores soltos por influência social e não só, continuam a alimentar a sensação de impunidade.
É urgente reforçar os mecanismos judiciais, criar secções especializadas para crimes contra menores, garantir formação específica a magistrados, polícias e outros profissionais, bem como assegurar a protecção imediata da criança durante todo o processo judicial.
A violência doméstica, o alcoolismo, consumo de drogas, abandono parental e a pobreza extrema tornam as crianças mais vulneráveis, pois, os ambientes instáveis produzem alvos fáceis.
Cresci a ouvir que, o abuso não começa no acto, começa na tolerância social e na fragilidade das estruturas familiares.
Estamos numa sociedade, onde as redes sociais e outras plataformas digitais abriram novas portas para o aliciamento, exploração e chantagem de menores. Há indivíduos que utilizam estes meios para satisfazer interesses obscuros, muitas vezes ligados a redes criminosas, sacrificando o futuro de crianças em troca de ganhos fáceis e imediatos.
Que caminhos seguir?
A resposta passa, necessariamente, pela educação, prevenção e responsabilização.
Neste sentido, precisamos começar aos menores, pois crianças informadas têm a capacidade de reconhecer os limites.
Professores, profissionais de saúde, líderes comunitários, agentes da polícia, pais e encarregados de educação precisam também de formação contínua para identificar sinais de abuso e agir correctamente.
O acompanhamento psicológico gratuito e prolongado às vítimas e às suas famílias deve deixar de ser uma promessa e tornar-se uma política pública efectiva, para vencermos esta luta que deve ser de todos, aliada ao reforço dos canais de denúncia seguros, anónimos e acessíveis.
Importa, também, sublinhar a responsabilidade na exposição pública destes casos. A privacidade das vítimas deve ser respeitada, sob pena de se reabrirem feridas profundas. É condenável que terceiros utilizem a dor alheia para protagonismo público. Diferente é quando a própria vítima, por decisão consciente, escolhe falar para ajudar outras e fortalecer a luta colectiva.
O abuso sexual de menores não escolhe género. Há meninas e meninos vítimas deste crime. Há homens e mulheres entre os agressores. Ignorar esta realidade é perpetuar o problema.
Não importa quem seja o autor: rico ou pobre, figura pública ou anónima. O crime deve ser denunciado, os culpados responsabilizados e as vítimas protegidas. Esta não é uma luta de famílias isoladas, é uma luta da sociedade inteira, porque proteger crianças não é opção, é dever e o silêncio.





































