A SOCIEDADE QUE TEMOS É O ESPELHO DAS NOSSAS FAMÍLIAS

A sociedade que temos não caiu do céu nem nasceu do acaso. Para a compreendermos, precisamos de olhar com atenção, mas com olhos de ver, não com os olhos distraídos de quem passa e finge não reparar. O meio que nos rodeia é, no fundo, o reflexo fiel das famílias que o compõem.

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Há questões que jamais devem ser ignoradas, como estas: que sociedade estamos a construir? E, logo a seguir, outra ainda mais desconfortável: o que se passa dentro das nossas casas? Onde estamos a falhar enquanto pais, educadores e referências? E, sobretudo, o que fazer para inverter este quadro?

Basta caminhar pelas ruas para encontrar sintomas claros de um problema mais profundo: O lixo espalhado pelo chão, mesmo quando há contentores a poucos metros; as passadeiras ignoradas, como se o civismo fosse opcional e não uma regra mínima de convivência; os espaços públicos degradados não apenas pela falta de manutenção, mas pela incapacidade colectiva de preservar o que é de todos.

Os números, ainda que muitas vezes tratados com indiferença, falam alto: crescem os casos de abuso sexual, multiplicam-se os assaltos, o desrespeito pelos mais velhos tornou-se quase banal, o atentado ao pudor circula sem pudor algum; o consumo de álcool e drogas, sobretudo entre os mais novos, deixou de ser excepção para se tornar rotina, feita em qualquer ponto e hora. Com base a este cenário, podemos concluir que há  um sinal vermelho a piscar… e nós muitas vezes fingirmos que é verde.

As paredes falam, com escritas por todo o lado: ruas, escolas, igrejas. Muitas feitas por menores e jovens que, antes de aprenderem a escrever o seu futuro, já vandalizam o presente. É sem dúvidas uma forma de gritar que algo falhou e falhou cedo.

Vivemos numa sociedade onde a ofensa é prática corrente, a mentira circula livre, a difamação é moeda social e a calúnia ganhou seguidores. O culto à personalidade cresce como erva daninha. Na ânsia de chegar ao topo, há quem escolha atalhos obscuros, empurrando outros para o abismo. O mais grave? Muitos dos chamados guardiões da moral violam-na sem pestanejar, rasgando, pouco a pouco, o tecido social.

A cena é simples, mas reveladora:

“Estás a me olhar assim porquê, papá?”

O filho questiona, no meio da multidão. Não é apenas uma pergunta, é                                                  um alerta, um espelho levantado diante do adulto. No fim, o pai envergonha-se, mas o comportamento repete-se.  Não é exclusivo da relação pai-filho, porque, repete-se nos casais, quando a postura negativa é exposta em público e a reacção surge, quase agressiva: “O que foi que fiz?”

Triste constatar que muitos já nem saúdam a vizinhança, ignoram seguranças nas empresas, passam sem um simples “olá”. Há quem responda a um cumprimento com desdém. Chegam quando querem, fazem o mínimo, mas quando alcançam cargos de liderança vestem a capa de super-heróis e transformam-se em chefes arrogantes, alérgicos à humildade.

Nem os espaços de fé escapam. Quantas vezes ouvimos relatos de líderes religiosos envolvidos com fiéis em troca de posições, favores ou supostas curas? Quantas vezes assistimos a discursos inflamados sobre unidade e perdão, enquanto, nos bastidores, o líder não fala com o seu adjunto?

Recentemente, ouvi o testemunho de um fiel de uma confissão religiosa mundialmente conhecida. Segundo ele, o líder da sua igreja não fala com o colaborador directo há muito tempo e decidiu afastá-lo da condução de cerimónias de casamento. O motivo? Dinheiro.

Uma revelação chamou a minha atenção, este mesmo líder, tem ocasiões que no mesmo dia, conduz cerimónias em três comunidades diferentes: de manhã, à tarde e à noite, apressado, mas disponível. Tudo em nome do desentendimento financeiro, enquanto o seu colaborador mantém-se praticamente desocupado.

Quantas vezes nas nossas famílias, não nos deparamos com membros que ainda na tenra idade, enganavam os pais e talvez os irmãos mais velhos, e estes, foram crescendo até chegar ao nível de fazer o mesmo com outras pessoas, tornando-se posteriormente em burladores que aparecem algemados nas telas.

Quantas vezes não desaparecem bens dentro de casa e, quando o filho é finalmente descoberto, surge o pai ou a mãe a defendê-lo? O vício cresce, a impunidade instala-se e, mais tarde, o mesmo comportamento desemboca no desvio de fundos nas instituições. Quantas vezes não vemos pais a sair às ruas para lutar por tudo e por nada, mas incapazes de acudir aos próprios filhos, de os chamar à razão e de impor limites?

Muitos indivíduos que não são organizados no seio familiar reproduzem exactamente o mesmo padrão noutros espaços da vida social.

Os exemplos são inúmeros, mas estes bastam e sobram, para provocar uma reflexão colectiva séria e inadiável.

No fim do dia, a raiz do problema é quase sempre a mesma: valores frágeis, ambição desmedida e famílias que perderam o papel de primeira escola do carácter. A sociedade não é um monstro abstracto, ela nasce à mesa de casa, no modo como falamos, educamos, corrigimos e damos o exemplo.

Se queremos uma sociedade melhor, não adianta apenas apontar o dedo para fora, é preciso começar por dentro, porque, gostemos ou não, a sociedade que temos é, exactamente, a família que deixamos ser.

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