QUE EDUCAÇÃO ESTAMOS A CONSTRUIR QUANDO TUDO PARECE NORMAL?

É com profunda preocupação que escrevo este artigo de opinião, não apenas para manifestar o meu repúdio diante de uma situação concreta, mas sobretudo para reflectir sobre o papel das instituições de ensino na construção dos valores de uma sociedade.

Imagem ilustrativa criada com recurso a inteligência artificial

Recentemente, uma instituição de ensino promoveu uma actividade cultural que contou com a presença de um artista cuja música apresentada contém expressões consideradas ofensivas à moral pública e inadequadas para um ambiente escolar. 

Ao assistir ao vídeo, senti uma enorme inquietação, não apenas pelo conteúdo artístico apresentado, mas pela aparente normalização daquela actuação perante alunos, professores e membros da própria comunidade escolar.

As instituições de ensino não são apenas espaços onde se transmitem conhecimentos técnicos e científicos, são também ambientes de formação humana, ética e social, por isso, cada actividade realizada dentro destas instituições deve estar alinhada com os princípios que se pretende incutir nos educandos.

Surge, então, uma questão inevitável: que tipo de valores estamos a transmitir aos jovens quando permitimos que conteúdos incompatíveis com a educação e o respeito pela dignidade humana sejam apresentados como entretenimento dentro de uma escola? Que autoridade moral teremos amanhã para condenar determinados comportamentos sociais, se hoje contribuímos para a sua aceitação?

A cultura tem um papel fundamental na formação dos cidadãos. A música, o teatro, a poesia, a dança e outras manifestações artísticas podem e devem fazer parte da vida escolar, porque também educam, inspiram e despertam consciências.

A liberdade artística deve caminhar lado a lado com a responsabilidade social, principalmente quando o público-alvo envolve crianças e adolescentes.

Não se trata de censurar a arte, limitar a criatividade ou impedir que artistas tenham espaço para apresentar o seu trabalho. Trata-se de compreender que cada conteúdo tem o seu contexto, o seu público e o seu momento adequado. Uma música que pode ser interpretada num determinado ambiente de entretenimento para adultos poderá não ser apropriada para uma instituição cuja missão principal é formar cidadãos.

Precisamos de reflectir sobre a sociedade que estamos a construir. Vivemos tempos em que muitos valores parecem estar a perder espaço e, frequentemente, quem chama atenção para determinadas atitudes acaba rotulado como “ultrapassado” ou “desactualizado”. Contudo, defender princípios, respeito e responsabilidade não significa rejeitar a modernidade; significa preservar aquilo que permite uma convivência saudável.

As instituições de ensino devem assumir uma postura criteriosa na selecção dos seus convidados e actividades culturais. Cada escolha feita dentro de uma escola representa uma mensagem transmitida aos estudantes. A responsabilidade não termina no palco, começa antes, no processo de avaliação e decisão de quem deve estar diante dos educandos.

Da mesma forma, os artistas precisam de compreender que a sua obra tem impacto e que o profissionalismo também passa por saber onde, quando e para quem apresentar determinado conteúdo. O artista não deve olhar apenas para a liberdade de expressão, mas também para a responsabilidade perante o público que recebe a sua mensagem.

Se estivesse integrado na equipa organizadora de um evento desta natureza e tivesse conhecimento prévio do conteúdo apresentado, teria defendido a interrupção imediata da actuação, pois existem limites que devem ser respeitados quando está em causa a formação moral e educativa dos jovens.

Que esta situação sirva de reflexão para todas as instituições. A escola deve ser um espaço onde se cultivam conhecimentos, sonhos e valores, e não um palco onde qualquer conteúdo seja aceite em nome do entretenimento.

A sociedade constrói-se com princípios, regras e responsabilidade colectiva. Se aceitarmos tudo como normal, corremos o risco de formar gerações incapazes de distinguir entre liberdade e falta de limites.

Fica, portanto, uma nota negativa para a instituição em causa pela escolha inadequada do convidado. Mais do que procurar culpados, é fundamental que este episódio sirva de aprendizagem para que futuras actividades culturais sejam pensadas com maior responsabilidade, tendo sempre como prioridade a formação integral dos estudantes.

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