ENTRE LÁGRIMAS E HERANÇAS

Hoje trago à reflexão um assunto que continua a gerar dor, conflitos e profundas divisões em várias famílias angolanas: a disputa pelos bens deixados pelo malogrado e, em muitos casos, o despejo da viúva e dos filhos, deixando-os entregues à própria sorte.

Imagem: Arquivo Ponto de Situação/IA

Apesar de já existirem relatos de viúvos que perdem bens, alegadamente por decisões da família da falecida, trata-se ainda de casos pontuais.

Neste artigo, procuro olhar para a realidade dura vivida por muitas viúvas e filhos quando o patriarca da família parte para a outra dimensão da vida. É uma dor que não se explica, sente-se.

Para além do luto pela perda do chefe de família, surge, em muitos casos, uma segunda ferida: a disputa pelos bens, frequentemente protagonizada por familiares que deveriam ser, em princípio, o porto seguro de quem fica.

Casas e outros patrimónios passam a ser reclamados sob o argumento de pertença exclusiva do falecido, esquecendo-se de que nada foi construído a solo: a esposa esteve lá e os filhos fazem parte dessa caminhada.

Meus senhores, muitos daqueles que assumem tais comportamentos, em vida do casal, raramente demonstravam presença, cuidado ou qualquer apoio material e emocional, salvo excepções.

Alguns nem sequer conheciam a porta da casa, mas basta a morte chegar para que se acendam sorrisos escondidos sob lágrimas falsas. Enquanto uns choram, outros fazem o inventário mental do que pode ser levado.

Há ainda casos em que os bens começam a desaparecer antes mesmo do funeral e, quando chega o momento da despedida, já a base do património foi silenciosamente desmantelada, surgindo depois a pergunta amarga: quem levou o quê?

Num cenário marcado pela desunião, surgem acusações contra a viúva ou os filhos quando, na verdade, o responsável pelo desaparecimento está dentro do próprio círculo familiar, escondido atrás de um luto encenado.

É uma vergonha que se repete e que transforma o luto em conflito, obrigando, em muitos casos, à resolução de disputas nos tribunais, quando tudo poderia ser evitado com diálogo e consciência.

Reconhece-se, porém, que existem famílias que honram a memória do falecido com dignidade, respeitando a viúva e protegendo os filhos.

Do ponto de vista cultural, sem generalizar, é igualmente comum que, em sinal simbólico, alguns familiares retirem pequenos bens como lembrança do ente querido, mas isso não pode, em caso algum, justificar o despejo da viúva e dos filhos, o que representa um sinal de ganância por parte de certos actores.

Importa lembrar que muitos familiares justificam o confisco de bens alegando que pertencem à família do falecido.

Perante este cenário, há quem opte por antecipar soluções como testamentos ou o registo de bens em nome dos filhos ou da esposa e, talvez, de outro familiar ou pessoas próximas, como forma de prevenção, mas, mais do que estratégias legais, o que deveria prevalecer era o respeito.

Ora, a prática de expulsar a viúva ou os filhos não é a mais correcta, pois tudo o que é construído pelo casal pertence a ambos.

A família do falecido não tem o direito de se apossar dos bens do casal. A administração da herança deve seguir, preferencialmente com acordo entre todos os herdeiros, facto que muitas vezes não acontece, gerando conflito no seio da família.

Entretanto, o despejo da viúva, a venda da casa ou a expropriação de bens do casal nunca devem fazer parte de uma tradição saudável. Isso é uma deturpação moderna dos costumes, muitas vezes movida pelo oportunismo e não pela cultura.

É urgente mudarmos. A cultura angolana valoriza a solidariedade e o apoio mútuo. Se a família do falecido, em vez de proteger o núcleo composto pela viúva e pelos filhos, ataca os seus bens, está a violar os princípios éticos da própria cultura que afirma defender.

A verdadeira tradição deveria basear-se no diálogo, na protecção dos mais vulneráveis e na preservação da memória do falecido, e não na divisão que transforma o luto em conflito.

Devemos construir uma sociedade nova, assente em valores sólidos, onde o luto não seja terreno de disputa, mas sim um espaço de memória, porque, no fim, os bens ficam… mas a vergonha também.

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