QUE MODELO DE ALIANÇA QUEREMOS PARA A NOSSA SOCIEDADE?

Há temas que, apesar de continuarem a ser considerados tabus por muitos, já fazem parte do quotidiano e dos debates da sociedade. A união entre pessoas do mesmo sexo é um deles.

Imagem: DR/Ponto de Situação

A recente oficialização da relação entre duas figuras públicas femininas, à semelhança de outros casos conhecidos de relações entre pessoas do mesmo sexo, voltou a dividir opiniões. De um lado, estão aqueles que defendem a liberdade individual e entendem que ninguém deve ser criticado pelas suas escolhas afectivas. Do outro, estão os que consideram que tais relações contrariam valores culturais, religiosos e sociais que entendem como fundamentais.

Vivemos numa época em que a liberdade individual ganhou uma dimensão cada vez maior. O indivíduo reivindica o direito de decidir sobre a própria vida, os seus afectos e a sua forma de constituir família, mas nenhuma sociedade vive apenas de escolhas individuais. Existem valores, leis e princípios que, ao longo do tempo, ajudaram a estruturar as comunidades.

No contexto africano, e particularmente em Angola, a família ocupa tradicionalmente um lugar central. O casamento não é visto apenas como a união de duas pessoas, mas também como a aproximação de famílias, a continuidade das linhagens e a construção de responsabilidades comuns.

Um dos argumentos frequentemente apresentados no debate sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo está relacionado com a reprodução.

Biologicamente, a reprodução humana depende da contribuição de um homem e de uma mulher. Esta é uma realidade biológica e não uma questão de opinião.

No entanto, existem crianças criadas por famílias através da adopção ou de técnicas de reprodução assistida.

Por isso, a questão não deve ser simplesmente perguntar de onde vêm as crianças, mas discutir qual é o modelo de família que queremos promover e quais são os critérios que devem orientar a protecção e o bem-estar da criança.

A criança, afinal, não escolhe a família em que nasce. Cabe à sociedade garantir que cresça num ambiente de segurança, afecto, responsabilidade e dignidade.

Para os cristãos, a concepção tradicional do casamento encontra uma das suas principais referências no livro de Génesis, quando é apresentada a união entre homem e mulher.

Em Génesis 2, 24, a Bíblia apresenta a ideia de que o homem deixa o pai e a mãe e se une à sua mulher, tornando-se ambos “uma só carne”. Outros textos bíblicos, como Efésios 5, também abordam a relação entre marido e mulher e as responsabilidades existentes dentro do casamento.

No Islão, o Alcorão também apresenta o casamento entre homem e mulher como uma união baseada no afecto, na misericórdia e na tranquilidade.

No Judaísmo, a tradição matrimonial está igualmente profundamente ligada à união entre homem e mulher e à constituição da família.

O que está a mudar?

A discussão contemporânea sobre os direitos das pessoas homossexuais ganhou grande visibilidade, sobretudo, a partir dos movimentos sociais do século XX. A revolta de Stonewall, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 1969, tornou-se um dos acontecimentos simbólicos mais importantes da luta pelos direitos das pessoas LGBT.

Com o passar das décadas, vários países começaram a reconhecer juridicamente diferentes direitos das pessoas homossexuais. Os Países Baixos tornaram-se, em 2001, o primeiro país do mundo a legalizar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

Desde então, outros países seguiram o mesmo caminho.

Esta transformação demonstra que as sociedades não são estáticas. Leis, costumes e percepções sociais podem mudar. A pergunta que se coloca é se todas as mudanças devem, necessariamente, ser acompanhadas por uma mudança dos nossos valores culturais e religiosos.

É aqui que o debate se torna mais complexo.

Enquanto africanos, temos o direito e, talvez, até o dever de discutir estas transformações a partir da nossa própria realidade.

Não precisamos de importar automaticamente modelos sociais de outras partes do mundo, mas também não devemos imaginar que a cultura africana é uma realidade imóvel, congelada no tempo.

A nossa cultura tem história, diversidade e capacidade de transformação.

A família continua a ser uma das instituições mais importantes da sociedade africana. É nela que aprendemos responsabilidade, solidariedade e respeito pelos outros.

Afinal, qual é o nosso caminho?

É possível defender valores religiosos e culturais e, simultaneamente, respeitar a dignidade de quem pensa ou vive de maneira diferente.E é possível discutir a família sem esquecer que, antes de qualquer rótulo, estamos a falar de pessoas.

A minha posição é de defesa da concepção tradicional da relação enquanto união entre homem e mulher, fundada em convicções culturais, religiosas e na própria concepção tradicional da família africana.

Quanto mais profundas forem as mudanças na sociedade, maior deve ser a nossa capacidade de discutir os assuntos.

A questão não é simplesmente saber quem venceu o debate. A verdadeira questão é saber que sociedade queremos construir, quais os valores que pretendemos preservar e como conseguiremos fazê-lo sem perder o respeito pela dignidade humana, porque uma sociedade madura não é aquela onde todos pensam da mesma maneira.

Uma sociedade madura é aquela onde conseguimos pensar de forma diferente sem deixarmos de nos reconhecer como seres humanos.

Todavia, reitero a posição anteriormente apresentada: defendo a concepção tradicional da relação enquanto união entre homem e mulher, fundada em convicções culturais, religiosas e na própria concepção tradicional da família africana.

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