O QUE NÃO É TEU, NÃO MEXAS!

Uma viagem de táxi revelou um retrato preocupante da falta de ética no mundo do trabalho

Em mais uma viagem de táxi azul e branco, vivi um episódio que me deixou profundamente inquieto. Não foi um acidente, nem uma discussão entre passageiros. Foi algo mais silencioso, mas igualmente grave: a banalização do furto.

Eram perto das 20h00. A paragem estava cheia e, depois de vários minutos de espera, chegou finalmente o táxi. Os passageiros entraram de forma ordeira, respeitando a ordem de chegada, enquanto outros aguardavam pelo próximo veículo.

Dois jovens, sentados próximos de mim, conversavam descontraidamente sobre vários assuntos. Falaram da situação da maior operadora de telecomunicações do país, a UNITEL, e do recente apagão que afectou milhares de clientes. Até aí, nada de extraordinário.

A conversa, porém, tomou um rumo surpreendente.

Sem qualquer constrangimento, um deles começou a contar ao amigo que, naquele dia, não tinha conseguido desviar dinheiro da empresa onde trabalha. Não porque tivesse desistido da ideia, mas porque o colega com quem fazia serviço era demasiado atento.

Repito: lamentava-se por não ter conseguido furtar.

Poucos minutos depois, abriu mais um capítulo da sua história. Com a maior naturalidade, afirmou que no dia seguinte iria trabalhar com outro colega, alguém que, segundo ele, já conhece bem e de quem consegue retirar dinheiro do estabelecimento comercial sem que este se aperceba.

O mais preocupante foi a reacção do interlocutor. Não houve qualquer censura do companheiro de viagem ou qualquer tentativa de o fazer mudar de ideia. Apenas um sorriso cúmplice, como se aquela conduta fosse perfeitamente normal.

Infelizmente, não tive oportunidade de intervir e condenar aquela atitude. A minha paragem tinha chegado. Paguei a corrida e saí do táxi, mas levei comigo uma enorme preocupação.

O comportamento daquele jovem é reprovável a todos os níveis e representa uma realidade que, infelizmente, continua presente em muitas instituições. São atitudes desta natureza que alimentam a desconfiança entre empregadores e trabalhadores, precisamente numa época em que as organizações precisam de fortalecer relações assentes na confiança, na responsabilidade e no profissionalismo.

Quem trabalha deve fazê-lo com zelo, honestidade e respeito pelo património que lhe é confiado. O sucesso de uma empresa depende, em grande medida, da integridade das pessoas que nela exercem funções.

Um trabalhador que entra todos os dias com a intenção de desviar bens ou dinheiro da organização não é digno de integrar qualquer instituição. Não prejudica apenas o patrão, ele prejudica colegas, clientes, fornecedores e inúmeras famílias que dependem da estabilidade daquela empresa.

Muitas organizações encerram portas não apenas por dificuldades económicas, mas também por causa de comportamentos desonestos praticados por quem devia protegê-las por dentro.

É fácil esquecer o enorme esforço que empresários e gestores fazem diariamente para manter uma empresa de pé: pagar salários, cumprir obrigações fiscais, garantir condições de trabalho e assegurar a continuidade dos postos de emprego. Quando alguém decide apropriar-se do que não lhe pertence, está a colocar em risco todo esse esforço colectivo.

Pessoas com este tipo de comportamento não estragam apenas as contas da empresa. Estragam a confiança, comprometem o ambiente de trabalho e colocam em causa o futuro de colegas inocentes, que poderão perder o emprego por actos que nunca cometeram.

Ainda há tempo para mudar. A honestidade continua a ser o caminho mais seguro. O dinheiro obtido de forma ilícita pode parecer uma vantagem momentânea, mas as suas consequências são duradouras e, muitas vezes, devastadoras.

Se queremos construir uma sociedade mais justa, temos de começar pelos gestos mais simples. O respeito pelo bem comum, pelo património alheio e pelo fruto do trabalho dos outros não pode ser negociável.

Os grandes cidadãos distinguem-se nos pequenos actos do quotidiano; é aí que o carácter se revela!

 LEIA TAMBÉM: https://www.pontodesituacao.ao/que-educacao-estamos-a-construir-quando-tudo-parece-normal