A PAREDE DA “SATISFAÇÃO” GUARDA VÁRIOS SEGREDOS
A “Parede da Satisfação” pode parecer apenas uma parede, dois becos e algum lixo. Mas, para quem olha com atenção, aquele espaço conta uma história muito maior: fala de sobrevivência, sexualidade, saúde pública, e dignidade humana.
Talvez o mais preocupante seja precisamente isto: passamos por determinados lugares todos os dias, mas nem sempre paramos para perceber o que eles escondem.
E talvez aquela parede, silenciosa durante o dia e movimentada durante a noite, esteja a dizer-nos mais sobre a nossa sociedade do que aquilo que somos capazes de ouvir.
Não sei exactamente o nome oficial daquela via, mas está localizada na Vila do Gamek, no sentido oposto à paragem de autocarros e táxis, para quem sai do Café da Vila em direcção à pedonal.
Passei várias vezes por aquele perímetro, em diferentes horários. Numa das manhãs, no ano passado, deparei-me com preservativos masculinos usados espalhados pelo chão. Continuei o meu caminho. Semanas depois, ao regressar ao mesmo local, encontrei exactamente o mesmo cenário.
Questionei-me de imediato: em vez de deixarem preservativos no chão, não teriam as pessoas outros locais mais discretos para o fazer?

O que mais me deixou a reflectir foi o aumento notável de preservativos usados espalhados pelo chão. Qualquer pessoa que passe por aquele local, sobretudo durante a manhã, pode observar este rasto.
Como ilustram as imagens, aquela parede, que decidi intitular de “Parede da Satisfação”, possui duas passagens estreitas com escadas. Os espaços estão repletos de lixo e exalam um cheiro nauseabundo. É ali, precisamente, que, segundo relatos que recolhi no local, ocorrem encontros entre algumas mulheres e os seus clientes, ao passo que, outras procuram outros espaços no mesmo perímetro para cumprir com os seus objectivos.
Soube, através de algumas pessoas, que, durante a noite, quando um homem passa por aquele perímetro, tem maior probabilidade de ser abordado. Algumas mulheres, segundo os mesmos relatos, já têm preservativos consigo, numa espécie de preparação antecipada para os encontros, na eventualidade do cliente não se fazer acompanhar do mesmo.
O local é também uma zona de passagem para várias pessoas, incluindo crianças. A quantidade de preservativos usados e respectivas embalagens plásticas espalhadas pelo chão constitui uma realidade visível. O lixo acumula-se e, para além dos encontros sexuais, há pessoas que fazem naquele espaço as suas necessidades fisiológicas, agravando as condições de higiene e podendo representar riscos sanitários.
É precisamente aqui que a questão deixa de ser apenas sobre o comportamento de quem frequenta aquele espaço.

Preocupa-me o estado do próprio espaço: lixo acumulado, resíduos espalhados pelo chão e condições de higiene que parecem incompatíveis com um local frequentado diariamente por várias pessoas.
O problema ultrapassa, por isso, a dimensão individual, pois envolve higiene, segurança, saúde pública e dignidade humana.
É necessário reflectir sobre até que ponto as pessoas podem ser levadas a determinadas situações para conseguir dinheiro e satisfazer as suas necessidades.
LEIA TAMBÉM: O PRATO QUE MUITOS ESQUECEM DE HONRAR




































