PSICÓLOGA EXPLICA POR QUE ALGUMAS PESSOAS ENTRAM NO MUNDO DO CRIME
A psicóloga Elvira Nambalo alerta que o comportamento criminoso de um indivíduo não deve ser analisado a partir de uma única causa, mas como resultado da interacção entre diferentes factores sociais, psicológicos e biológicos.
O país tem vindo a registar, regularmente, assaltos em vários pontos, alguns já esclarecidos pelas autoridades, enquanto outros permanecem sob investigação.
A título de exemplo, recentemente ocorreram assaltos a viaturas de transporte de valores destinadas a estabelecimentos bancários, sendo que um dos casos terminou na morte de um profissional de segurança e deixou outro ferido.
Um outro relato chegado à redacção do Portal Ponto de Situação, entre as 14h00 e as 18h00 de quinta-feira, 9 de Julho, as autoridades registaram quatro casos de roubo que resultaram na subtracção de diversos bens e valores monetários avaliados em 3.950.000,00 kwanzas (três milhões, novecentos e cinquenta mil kwanzas), nos municípios de Viana e Cazenga.
Em entrevista ao Portal Ponto de Situação, Elvira Nambalo, convidada a analisar o contexto social na formação do comportamento criminoso, explicou que, do ponto de vista da psicologia, este fenómeno está associado a condutas que violam as normas jurídicas estabelecidas por uma sociedade.
Segundo a especialista, o comportamento criminoso é influenciado por diversos factores, com destaque para a aprendizagem, personalidade, emoções, desenvolvimento ao longo da vida e o ambiente onde o indivíduo está inserido.
De acordo com a psicóloga, estudos demonstram que a pobreza, desigualdade social, exclusão, desemprego, violência comunitária, consumo de álcool e outras drogas, baixa escolaridade, influência de grupos delinquentes e ausência de referências positivas são alguns dos factores que podem aumentar a vulnerabilidade de uma pessoa ao envolvimento em práticas criminosas.
Com base nestes aspectos, Elvira Nambalo defende que “não existe uma causa única, nem um gene do crime”. A profissional recorda que a ciência aponta para a existência de uma combinação de elementos que interagem na construção do comportamento humano.
Analisando os casos de cidadãos envolvidos em práticas criminosas que cresceram em famílias com boas condições económicas, a especialista esclarece que a estabilidade financeira não elimina outros factores de risco.
“A procura de poder, pressão social, consumo de substâncias psicoactivas, dificuldades no desenvolvimento moral e emocional podem ser determinantes para a entrada no mundo do crime de pessoas consideradas bem posicionadas na sociedade do ponto de vista económico”, afirmou.
Redes sociais podem influenciar comportamentos
Imagem: Dr/Ponto de Situação
A psicóloga chamou ainda atenção para o papel das redes sociais, que podem tanto contribuir para a prevenção como para a normalização de comportamentos ilícitos.
Segundo Elvira Nambalo, as plataformas digitais podem transformar-se em espaços de incentivo à violência, golpes e desafios perigosos quando utilizadas de forma irresponsável, mas também podem servir como ferramentas de educação e sensibilização.
Família tem papel fundamental na formação dos comportamentos
Ao longo da entrevista, a psicóloga reflectiu sobre o papel da família na formação dos comportamentos dos cidadãos, por constituir o primeiro espaço de aprendizagem social.
Elvira Nambalo explicou que este núcleo basilar da sociedade pode influenciar significativamente o desenvolvimento emocional e comportamental das crianças.
“Ambientes marcados por violência, negligência ou abandono podem aumentar a vulnerabilidade, mas não determinam que a criança se torne criminosa”, esclareceu.
Perante este cenário, a especialista considera que um dos principais instrumentos para inibir comportamentos criminosos e incentivar escolhas positivas passa pelos factores de protecção, como uma educação adequada, apoio familiar, acompanhamento psicológico e criação de oportunidades sociais.
Traumas de infância podem aumentar vulnerabilidades
Questionada sobre o impacto dos traumas na infância, a psicóloga explicou que experiências negativas durante esta fase da vida, com destaque para o abandono, rejeição e violência, podem afectar o desenvolvimento emocional de uma pessoa.
“Com apoio psicológico, familiar e social, é possível desenvolver resiliência e construir trajectórias saudáveis”, destacou.
Sobre as características psicológicas associadas a alguns indivíduos envolvidos em crimes, Elvira Nambalo citou a impulsividade, baixa tolerância à frustração, dificuldades de autocontrolo e reduzida empatia.
A também Educadora Social, alertou que estes traços não significam automaticamente que uma pessoa irá cometer crimes, mas podem funcionar como sinais de alerta.
Prevenção passa pela educação, emprego e inclusão social

A psicóloga defende que o combate à criminalidade deve ultrapassar uma abordagem exclusivamente repressiva e apostar também na prevenção.
“A educação de qualidade, saúde mental, fortalecimento das famílias, emprego, cultura, desporto e inclusão social são estratégias fundamentais de prevenção dos crimes”, reforçou.
Tendo em conta os relatos das autoridades sobre cidadãos que, após cumprirem penas de prisão, voltam a envolver-se em assaltos, a especialista considera que este é um assunto que deve merecer a atenção da sociedade.
Elvira Nambalo defende que a reintegração social depende da existência de programas de educação, formação profissional, acompanhamento psicológico e oportunidades reais após o cumprimento da pena.
Segundo a psicóloga, o preconceito contra antigos reclusos pode dificultar o regresso à sociedade e favorecer novos episódios de criminalidade.
Na mensagem final, Elvira Nambalo sublinhou que compreender as causas da criminalidade não significa justificar actos criminosos, mas encontrar caminhos mais eficazes para preveni-los.
“Precisamos compreender as causas para desenvolver melhores estratégias de prevenção e construir uma sociedade mais segura e justa”, concluiu.




































