MINISTRO POR 35 SEGUNDOS
Há momentos estranhos na vida em que a mente corre mais rápido do que o próprio tempo. Em poucos segundos somos capazes de viver histórias inteiras, ocupar cargos que nunca ocupámos e tomar decisões que talvez nunca tenhamos oportunidade de tomar na realidade. É como se o pensamento fosse um território livre, onde qualquer cidadão pode ser presidente, juiz, general ou ministro, nem que seja apenas por alguns instantes silenciosos.
Foi assim que aconteceu comigo.
Tudo começou com algo aparentemente simples: ouvir nomes. Nomes de homens que, segundo se dizia, estariam ligados à Polícia Nacional. Nomes que surgiam acompanhados de rumores pesados, histórias de armas que apareciam nas mãos erradas, de marginais que pareciam ter acesso a equipamentos que não deveriam ter. Não eram apenas palavras soltas; eram sementes de inquietação.
E a inquietação, quando encontra espaço na mente, transforma-se em pergunta.
“Se eu fosse…?”
Essa pergunta é antiga e universal. Todos nós já a fizemos alguma vez. Se eu fosse presidente… se eu fosse comandante… se eu estivesse no lugar de quem decide… Talvez porque, no fundo, cada ser humano carrega dentro de si uma versão ideal de si mesmo, alguém capaz de resolver aquilo que parece permanecer sem solução.
Foi nesse instante que o pensamento abriu as portas.
De repente, eu já não era apenas um observador indignado. Era o ministro Interior.
E como ministro, a revolta transformou-se em acção. Na minha mente organizei uma campanha rigorosa: cada efectivo da polícia teria de passar por um processo de reconhecimento de digitais associado à sua arma. Nenhuma arma circularia sem identidade, sem rasto, sem história.
A logística apresentou-me números exactos: quantas armas existiam, onde estavam. De Cabinda ao Cunene, o mapa do país transformava-se num grande tabuleiro de responsabilidade. Cada peça tinha de estar no lugar certo.
Depois vieram as reuniões. Generais das Forças Armadas sentados à mesma mesa, planos desenhados, sistemas de entrega revistos, mecanismos de controlo reforçados. Tudo meticulosamente organizado como num filme de investigação policial, onde cada detalhe conta e cada silêncio pode esconder uma pista.
Meses passaram dentro daquele pensamento.
Seis meses de investigação imaginada, de estratégias traçadas, de noites mentais sem dormir. Até que, finalmente, os nomes deixaram de ser apenas rumores. Tornaram-se provas. E os camaradas envolvidos naquele crime, a venda de armas de fogo aos marginais, foram finalmente apanhados.
A justiça parecia, enfim, respirar.
Mas então algo curioso aconteceu.
O tempo real voltou.
E percebi que, na verdade, eu não tinha sido ministro Interior durante seis meses. Nem durante um dia. Nem sequer durante uma hora.
Eu tinha sido ministro do Interior durante 35 segundos.
Trinta e cinco segundos de silêncio, enquanto a mente corria livre dentro de mim.
Pode parecer pouco, mas às vezes é nesses breves instantes que se revelam coisas profundas, porque aqueles 35 segundos mostraram-me algo que talvez seja mais importante do que ocupar qualquer cargo: mostraram-me que o desejo de justiça não pertence apenas aos governantes. Ele vive também dentro do cidadão comum.
Talvez seja por isso que a pergunta “se eu fosse” nunca desaparece.
Ela não é apenas fantasia, é muitas vezes, uma forma silenciosa de responsabilidade. Uma maneira de lembrarmos que o país não pertence apenas a quem governa, mas também a quem pensa nele, a quem se indigna com os seus problemas e imagina soluções, mesmo que seja apenas dentro da própria mente.
No fim, percebi que não era exactamente sobre ser ministro.
Era sobre não deixar morrer a capacidade de imaginar um país melhor, porque, às vezes, uma nação começa a mudar exactamente assim: primeiro dentro de um pensamento.
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