QUANDO O FOGO REVELA QUEM SOMOS
A manhã ainda mal tinha acordado quando a correria habitual já dominava as ruas. A ansiedade de chegar cedo à redacção, talvez até bater mais um recorde de pontualidade, misturava-se ao barulho dos táxis e ao movimento apressado da cidade. No meio da pressa, apareceu um jinbei, desses que o povo apelidou de “acaba de me matar”. O lotador gritava o destino com a energia de sempre: “Golfe 2! Shoprite!”.
Na pressa, entrei. No meu interior, uma pequena satisfação: hoje chegarei cedo.
Mas a cidade tem as suas próprias surpresas.
Mal o “mestre das curvas”, como às vezes chamamos os motoristas mais ousados, fez uma manobra brusca para ganhar espaço na estrada, veio a travagem repentina. O motorista desceu do carro e, poucos segundos depois, algo começou a sair do motor: fumo. Primeiro leve, depois mais intenso. E então alguém gritou: fogo!
O pânico instalou-se dentro do “acaba de me matar”. Cada passageiro revelou, naquele instante, o seu próprio instinto de sobrevivência. Alguns saltaram pela porta, outros pelas janelas, houve quem deixasse pastas, sacolas e até chinelos. Era o desespero natural de quem pensa que, naquele momento, a vida pode acabar.
Mas o que mais marcou não foi o fogo.
Foi o comportamento das pessoas.
Enquanto o motorista, aflito, gritava por ajuda:
“Socorro! Ajudem-me!” e certamente com mil pensamentos a atravessar-lhe a mente, como explicar ao patrão ou como sustentar a família se perdesse o carro, muitos dos que estavam ali fizeram algo curioso: pegaram no telemóvel.
Não para ajudar.
Mas para filmar.
Não para apagar o fogo.
Mas para registrar o fogo.
Entre tantas pessoas, apenas quatro se moveram para tentar ajudar. Quatro. O resto transformou a tragédia num espectáculo silencioso, pronto para ser publicado nas redes sociais com uma legenda qualquer.
Vivemos numa sociedade estranha. Uma sociedade que escreve sobre amor ao próximo, publica frases bonitas, partilha mensagens de solidariedade, mas que, na hora da prática, permanece parada, imóvel, quase indiferente.
Queremos mostrar tudo, mas não queremos fazer nada.
O carro acabou por incendiar-se.
O camarada ficará alguns dias sem trabalhar.
E talvez alguns tenham ganhado muitas visualizações nas redes sociais.
Infelizmente.
Mas, no meio das cinzas daquele motor queimado, ficou uma pergunta que arde mais do que o próprio fogo: quando foi que perdemos o amor pelo próximo? Porque, às vezes, o verdadeiro incêndio não está no carro, está no coração frio de uma sociedade que aprendeu a observar mais do que a ajudar.
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