LIXO MARINHO: CABO VERDE LIDERA A REVOLUÇÃO AZUL CONTRA AMEAÇA SILENCIOSA

O Arquipélago reafirma objectivo de liderar resposta africana na preservação dos oceanos, na Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, onde o presidente José Maria Neves pediu mobilização urgente de parceiros, sector privado e ONU.

Imagem: UN News

Diante da situação ambiental, a Ilha da Boa Vista tornou-se o epicentro de um apelo urgente das autoridades pela consciência e acção. O pedido foi feito durante a Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável que terminou nesta sexta-feira, 24. O lema foi “Economia Azul: Caminhos Sustentáveis”.

Na reunião, o presidente da República, José Maria Neves, falou à ONU News, dIlha da Boa Vista, reafirmando a posição estratégica de Cabo Verde na linha da frente do combate à poluição plástica nos mares. 

A mensagem promovida além das fronteiras insulares é que a nação africana, cujo território é composto por 99% de mar, não pode assistir passivamente à degradação do seu maior tesouro.

“O lixo marinho não afecta apenas a biodiversidade e as nossas praias; prejudica todo o processo global de gestão sustentável dos recursos marinhos. É uma ameaça que exige respostas conjuntas.”

O despertar na reserva natural de Santa Luzia

A gravidade do desafio ganhou um contorno visual marcante durante alguns eventos que marcaram a Conferência da Década do Oceano, realizados na desabitada Ilha de Santa Luzia. 

Naquela reserva natural, onde a presença humana é inexistente, o cenário de resíduos plásticos trazidos pelas marés serviu como um poderoso e indiscutível testemunho da escala global do problema.

José Maria Neves enfatizou em Santa Luzia que a poluição dos mares transcende o impacto estético ou local. Trata-se de uma crise sistémica que estrangula a economia azul global, contamina as cadeias alimentares marítimas e põe em risco o equilíbrio climático do planeta.

Voz de África para a preservação global

Como Campeão para a Preservação do Património Natural e Cultural da União Africana, Cabo Verde assume o compromisso de erguer o tema ao topo da agenda de liderança do continente. 

O líder defendeu que o combate ao plástico nos oceanos é uma batalha que nenhum país, por mais empenhado que seja, consegue vencer de forma isolada.

Para materializar essa visão, o arquipélago está a impulsionar uma inovadora plataforma de cooperação entre os países ribeirinhos do Atlântico. Esta aliança visa articular programas conjuntos de recolha, monitorização contínua e mitigação de resíduos.

Paralelamente, o plano de acção prioriza o fomento da economia circular através do estímulo a startups, iniciativas privadas e projectos inovadores voltados para a reciclagem e valorização de materiais descartados.

Cinco ilhas numa trajetória de consolidação

No topo das prioridades africanas defendidas por Cabo Verde está o reforço substancial de ONGs ambientais e instituições universitárias. O investimento directo na investigação científica e nas ações comunitárias é visto como o motor essencial para criar soluções duradouras de preservação marinha.

A força da liderança de Cabo Verde no cenário internacional é o resultado de uma evolução madura e contínua.

Ao longo de cinco edições, a Conferência da Década do Oceano percorreu um itinerário geográfico e político simbólico pelo arquipélago, transformando o país em um verdadeiro ecossistema de debate e formulação de políticas públicas ambientais.

Tudo começou de forma modesta na Ilha de São Vicente, reunindo em uma pequena sala o conhecimento da academia local e o fervor das organizações não-governamentais.

Projeção internacional às causas ambientais

Para o presidente de Cabo Verde, esse apoio tem sido fundamental para dar escala, rigor técnico e projeção internacional às causas ambientais defendidas pelo arquipélago.

“Temos de mobilizar países, instituições, as Nações Unidas, o Banco Africano de Desenvolvimento, organizações não-governamentais, parceiros de desenvolvimento e empresas para desenvolvermos programas comuns de combate ao lixo marinho e resolvermos definitivamente essa questão a nível de Cabo Verde. Já há iniciativas de empresas para reciclagem do lixo e ONGs financiadas para esta causa. Se o mundo andar mais depressa hoje, em 2030 colherá os frutos de um oceano limpo, próspero e cheio de vida.”

José Maria Neves defende que a recta final para o cumprimento da Agenda 2030 exige um ritmo acelerado.

No centro desse esforço está o Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 14 defendendo a Vida Debaixo de Água.

Cabo Verde entende essa meta como o pilar central para transformar a economia azul em uma fonte abundante de crescimento inclusivo, geração de emprego para jovens e sustentabilidade para as futuras gerações.

No Oceano Atlântico, o arquipélago de Cabo Verde se destaca por paisagens naturais de grandes horizontes e águas puras do património natural e pela rica biodiversidade marinha. O país lusófono também carrega uma condição geográfica singular: é ponto onde cruzam as grandes correntes marítimas do planeta. 

Esses atributos convivem com toneladas de resíduos plásticos e lixo marinho trazidos de várias regiões do globo e da costa continental africana. Elas desaguam nas praias cabo-verdianas, ameaçando ecossistemas sensíveis e a subsistência das comunidades locais.