“OPERATIVOS” CONFIRMAM ENVOLVIMENTO DE COLEGAS EM ASSALTOS E DENUNCIAM PÉSSIMAS CONDIÇÕES DE TRABALHO
NOTA DA REDACÇÃO: Esta foi a primeira reportagem publicada pelo Portal Ponto de Situação, a 1 de Agosto de 2024, data da sua fundação. A reportagem é agora republicada no âmbito da retrospectiva do segundo ano de actividade.
Profissionais de segurança, em Luanda, revelam que existem colegas aliciados para o cometimento de assaltos, chegando mesmo a fornecer, na "calada da noite", armas de fogo a delinquentes.
Segundo apurou o Ponto de Situação, em troca, o profissional recebe normalmente uma quantia em dinheiro cujo montante depende do sucesso da acção. Quanto maior for o número de assaltos realizados durante o período acordado, maior será a percentagem recebida.
De acordo com os relatos, alguns chegam mesmo a exigir valores superiores, em função do número de munições utilizadas.
Na ânsia de concretizarem os seus objectivos com maior rapidez, testemunhas afirmam que há colegas que não medem as consequências e abraçam o "mundo do crime", chegando a incentivar outros profissionais a seguirem o mesmo caminho.
Face ao perigo que esta prática representa, podendo culminar no despedimento da empresa e na instauração de um processo judicial, chegam relatos de seguranças que exigem igualdade na divisão dos valores entre todos os participantes.
Apesar deste cenário, Mário Miguel garante que continuam a existir profissionais de postura íntegra.
O mesmo relata que, há três anos, um dos seus companheiros de trabalho foi convidado a participar em actividades criminosas. Recusou a proposta, comunicou o caso aos responsáveis da empresa e, com o apoio da Polícia Nacional e do Serviço de Investigação Criminal (SIC), foi possível frustrar a acção dos marginais.
RENDA EXTRA
Por alegadamente auferirem baixos salários, muitas vezes inferiores a 45 mil kwanzas, alguns profissionais de segurança, em diversos pontos de Luanda, optam por controlar viaturas de automobilistas, recebendo entre 200 e 1.000 kwanzas, consoante o local onde exercem funções.
Há também "operativos" que utilizam os seus postos de trabalho para a prática da prostituição durante o período nocturno, situação apontada em zonas como Avó Kumbi, Golf 2, Gamek e Catinton, em Luanda.
Em determinados locais, armazéns, casas de banho e áreas pouco movimentadas e com fraca iluminação são transformados em prostíbulos durante a noite.
Em troca de valores entre 300 e 500 kwanzas por cliente, alguns aproveitam a situação para obter rendimento extra, revelou um funcionário de uma empresa de segurança no distrito da Maianga.
O interlocutor garante que, muitas vezes, são as próprias jovens envolvidas na prostituição que sugerem estes locais aos acompanhantes, por conhecerem bem o perímetro e os funcionários das empresas de segurança.
"Existe muita gente que não tem para onde ir com a sua companheira e aproveita estes sítios para satisfazer as suas necessidades", contou o cidadão João Manuel.
ACTIVIDADE DE ALTO RISCO
Imagem: DR/Ponto de Situação
Com uma experiência de 12 anos adquirida em quatro empresas da capital, Jorge António confirma que a actividade de segurança é uma das mais delicadas, devido aos riscos constantes.
"Quando trabalhava na Baixa de Luanda e no bairro Mártires do Kifangando testemunhei vários assaltos. Sofremos ameaças até de morte", recordou.
Os "operativos", como habitualmente são designados, denunciam, com tristeza, ameaças constantes por parte de indivíduos que os encaram como obstáculos à concretização de actos ilícitos.
Os profissionais afirmam que têm dado um importante contributo para o combate à criminalidade, mas lamentam que esse esforço nem sempre é reconhecido.
Em muitos casos, asseguram que são os primeiros a intervir, antes mesmo da chegada da Polícia Nacional, conseguindo neutralizar os amigos "do alheio" e impedir consequências mais graves.
Jorge António recorda um episódio ocorrido em 2017, quando prestava serviço numa instituição bancária. Na ocasião, ao presenciarem assaltos em bancos vizinhos e contra cidadãos, os seguranças uniram esforços e conseguiram frustrar a acção dos criminosos antes da chegada da Polícia Nacional.
Os entrevistados consideram que trabalhar em bairros marcados por frequentes assaltos e pela falta de energia eléctrica representa um elevado risco.
Acrescentam que muitas empresas de segurança contratam cidadãos sem qualquer experiência militar ou policial, proporcionando-lhes formação, incluindo no manuseamento de armas de fogo, como aconteceu com João Paulo, de 30 anos.
ALIMENTAÇÃO E ESTADO DOS QUARTOS DE BANHO PREOCUPAM OS PROFISSIONAIS
Alguns profissionais afirmam ter acesso à alimentação apenas às 14h00 ou às 16h00, servindo essa única refeição como mata-bicho, almoço e jantar. Muitas vezes, acrescentam, a comida chega em mau estado de conservação.
Segundo os entrevistados, esta situação leva alguns trabalhadores a abandonarem temporariamente os seus postos para procurarem alimentação, correndo o risco de verem o armamento desviado ou as empresas sob a sua responsabilidade serem assaltadas.
Relativamente aos quartos de banho, afirmam que há instituições que não dispõem destas infra-estruturas e, quando existem, nem sempre apresentam condições de utilização, obrigando os funcionários a recorrer à boa vontade de instituições vizinhas.
Os entrevistados apelam aos cidadãos e empresas que pretendam contratar serviços de segurança para que garantam condições mínimas de trabalho, promovendo uma maior humanização da profissão. Segundo afirmam, há locais que nem sequer dispõem de um espaço adequado para os profissionais guardarem o armamento.
Por outro lado, esperam uma maior valorização por parte da sociedade. Justificam que ainda persistem preconceitos, sendo frequentemente vistos como profissionais de baixa escolaridade. No entanto, sublinham que já é cada vez mais comum encontrar, nas empresas do sector, profissionais com formação superior ou frequência universitária.




































