MARÇO, MÊS DELAS: AS HEROÍNAS QUE NÃO USAM CAPA, MAS CARREGAM O MUNDO À CABEÇA

Março chega como quem bate à porta com respeito. Não é só mais um mês no calendário, é um espelho. E, quando olhamos bem, vemos reflectida nele a força silenciosa da mulher angolana.

Imagem: DR Ponto de Situação

Estava eu a ouvir o noticiário das 13 horas da Rádio Nacional de Angola, na voz serena de Vânia Varela, quando a mente começou a viajar. Entre uma notícia e outra, lembrei-me das que escreveram a História com sangue, suor e convicção: Deolinda Rodrigues, Irene Cohen, Engrácia dos Santos, Lucrécia Paim. Nomes que ecoam nas páginas oficiais, mas cuja essência vive, sobretudo, nas mulheres anónimas.

E foi aí que percebi: o legado não ficou no passado. Ele anda pelas ruas poeirentas de Luanda, equilibra bacias de kissângua na cabeça, acorda às cinco da manhã e regressa às quinze, com os pés cansados, mas a dignidade intacta.

A heroína de Março não está apenas nos livros. Está na zungueira que transforma a corrida diária na sua ginástica forçada, porque o pão não se ganha com promessas. Está na camponesa que lavra a terra com a mesma fé com que reza pelos filhos. Está na jovem que abandonou os estudos para assumir a casa depois da morte da mãe, enquanto o pai, armado em machão, não aguentou a pressão e evaporou, até a conta do Facebook desactivou. Ironias da vida moderna.

Está na mulher que paga a kixikila religiosamente, que junta moeda por moeda para assegurar as propinas na escola do professor Noi, porque a vaga na escola pública foi um sonho travado pela limitação. Está na médica que salva vidas depois de ter vencido as próprias batalhas. Está na gestora que assina documentos durante o dia e assina o caderno dos filhos à noite.

E está, sim, na “mamã coragem” do bairro, aquela que aguenta duas rivais, um marido distraído e, ainda assim, não deixa cair o lar. Não é romantização da dor, é constatação da resistência. Mas atenção: valorizar não é normalizar o sofrimento, é reconhecer a força e, ao mesmo tempo, exigir condições mais justas.

Março não deve ser apenas um mês de flores e discursos bonitos, deve ser um mês de consciência colectiva, de políticas públicas eficazes, de igualdade salarial real, de combate à violência doméstica que ainda insiste em bater à porta errada, ou melhor, à porta de todas, porque a mulher angolana não quer pedestal, quer oportunidade; não quer aplauso vazio, quer respeito contínuo.

A mulher angolana não quer ser lembrada apenas em Março, quer ser valorizada em todos os dias que compõem o calendário da nação.

As heroínas modernas decidiram escrever o nome de Angola nos mais altos níveis na ciência, na política, na educação, no empreendedorismo e,  fazem-no sem abandonar as raízes, são tradição e futuro na mesma pele.

Março é delas, mas, sejamos francos, Angola é todos os dias sustentada por elas.

À camponesa, à zungueira, à médica, à gestora, à estudante, à mãe, à filha, à irmã, aquelas que ficaram e às que continuam a abrir caminho.

Bem-haja às nossas heroínas.

Não usam capa, usam coragem e  isso, meus caros, é superpoder a sério!

FELIZ MARÇO MULHER.

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