ANALISTA CONSIDERA ILEGAL DETENÇÃO DE MADURO E CRITICA SILÊNCIO DE ESTADOS QUE TEMEM REPRESÁLIAS DE TRUMP
O analista político Hamilton João considerou ilegal a intervenção militar dos Estados Unidos da América na Venezuela, que resultou na detenção de Nicolás Maduro e lamenta o silêncio de vários Estados, por alegadamente temerem represálias políticas e diplomáticas por parte da administração Trump.
Segundo o analista, para que uma acção militar seja legítima num determinado território, a Carta das Nações Unidas, nos seus artigos 4º e 51º, exige autorização interna do Estado visado ou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, requisitos que, no seu entendimento, não foram observados neste caso.
Nicolás Maduro, de 63 anos, encontra-se actualmente detido no Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn, nos Estados Unidos, após ter sido capturado em território venezuelano, a 3 de Janeiro do corrente ano. O ex-chefe de Estado está detido juntamente com a esposa, Cilia Flores e ambos aguardam a próxima audiência judicial, agendada para 17 de Março.
Hamilton João, que falava na mais recente edição do Ponto de Situação Podcast, afirmou que a intervenção norte-americana contrasta com o discurso oficial de Washington, que justifica a acção com base na defesa da democracia, dos direitos humanos e da mudança ideológica.
“Recentemente, Donald Trump afirmou, numa entrevista, que não respeita o Direito Internacional, mas sim a sua própria moral. Se a sua moral ditar determinada acção, ela acontecerá, independentemente de ser legal ou ilegal”, sublinhou o analista.
De acordo com Hamilton João, os reais interesses dos Estados Unidos na Venezuela estão ligados essencialmente aos recursos naturais, com destaque para o petróleo, bem como ao potencial energético e tecnológico do país sul-americano.
O especialista enquadrou igualmente a intervenção no plano geopolítico, recordando a Doutrina Monroe, formulada em 1823 pelo então Presidente James Monroe e posteriormente reinterpretada por Theodore Roosevelt. Inicialmente vista como uma doutrina defensiva, passou para acções de carácter ofensivo, incluindo intervenções militares.
Hamilton João lembrou que empresas norte-americanas do sector petrolífero actuavam na Venezuela antes da ascensão de Hugo Chávez e com a implementação da Revolução Bolivariana, o Estado venezuelano nacionalizou as petrolíferas e limitou a exploração e venda do crude aos Estados Unidos.
Segundo o analista, a hostilidade entre Washington e Caracas intensificou-se com a chegada ao poder de Nicolás Maduro, tendo terminado com o encerramento da embaixada venezuelana em Washington e no agravamento das sanções, sobretudo durante o primeiro mandato de Donald Trump.

Os Estados Unidos acusam Nicolás Maduro de vários crimes, incluindo narcoterrorismo, acusação formalizada em 2020. Após a sua detenção, a 3 de Janeiro deste ano, registaram-se manifestações de celebração por parte de alguns sectores da sociedade venezuelana.
Sobre este cenário, Hamilton João apresentou duas leituras: a existência de um regime autoritário, com restrições às liberdades fundamentais e a fragilidade socioeconómica de um país rico em recursos naturais, mas incapaz de garantir qualidade de vida à maioria da população. Factores estes, que acredita estarem na base para a referida manifestação de certos cidadãos deste território.
O analista advertiu, que apenas o tempo permitirá avaliar se a intervenção norte-americana resultará em desenvolvimento para a Venezuela e recorda exemplos como o Iraque e outras regiões do Médio Oriente, onde intervenções militares dos Estados Unidos, agravaram a instabilidade e favoreceram o surgimento de grupos armados.
Hamilton João alertou ainda outros líderes mundiais para a necessidade de investirem na melhoria das condições de vida dos seus cidadãos, sob pena de tornarem os seus Estados vulneráveis a interferências externas.
O entrevistado, avançou que, após a acção norte-americana, observou-se o silêncio de vários Estados, que, apesar de considerarem a intervenção ilegal, receiam manifestar condenação pública, temendo represálias políticas e diplomáticas por parte dos Estados Unidos.
Por fim, o analista manifestou preocupação com a inoperância da ONO.Perante este contexto, apelam por reformas urgentes, sobretudo no Conselho de Segurança, com a inclusão de novos actores internacionais, de modo a garantir maior eficácia e representatividade.
“A ONU encontra-se desacreditada há muito tempo, por não conseguir responder de forma eficaz aos conflitos e crises que continuam a surgir em várias partes do mundo”, concluiu.
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