QUANDO O RESPEITO DEPENDE DO TAMANHO DO CORPO
Quase sempre ouço comentários sobre respeito ou a sua ausência, em função da estrutura física de uma pessoa.
O assunto surge em múltiplos contextos: no círculo de amigos, no seio familiar, no local de trabalho, nos corredores institucionais e outros sectores da sociedade. Um tema que cresce e que, desta vez, instalou-se na fila do táxi.
Enquanto o táxi tardava, as conversas multiplicavam-se. Uns desabafavam sobre o emprego, outros partilhavam histórias familiares, alguns arriscavam análises políticas, sociais e religiosas. Eu mantinha-me em silêncio, absorvendo cada frase como quem observa um retrato social em movimento.
Foi então que a conversa ganhou contornos inquietantes e prestei atenção, nas declarações de uma senhora:
-No meu trabalho, como o meu chefe é pequeno de estatura, muitos desrespeitam-no. Já o adjunto, que é grande, impõe medo só de aparecer.
Outra passageira confirmou:
-Na minha empresa aconteceu o mesmo. O primeiro chefe, de estatura menor, teve de impor autoridade à força para ser respeitado. Quando entrou outro, mais corpulento, todos o temiam desde o primeiro dia.
E alguém, entre risos, atirou:
-Mas um chefe tem de ter pelo menos uma barriga grande!
Sorriam.
Interroguei-me, em silêncio: ainda em pleno século XXI se mede autoridade pelo tamanho do corpo? Confundimos presença física com liderança? Medimos competência pela largura dos ombros?
Estamos atrasados e não é pouco.
O problema não é superficial. Tem pessoas que associam estatura física a poder, como se o corpo fosse cartão de visita da autoridade.
Recordo um episódio numa festa entre amigos. A maioria tinha estatura mediana ou baixa, mas havia um cuja dimensão corporal sobressaía. Um desconhecido aproximou-se e depois de alguns minutos de conversa, apontou ao meu amigo:
-Aqui no grupo, só ele é que pode meter medo. Tem corpo de funcionário de uma instituição do Estado.
O comentário foi desconfortável. Reduzia autoridade a aparência. Transformava o físico em critério de intimidação.
Noutras ocasiões, ouvi colegas afirmarem que muitos trabalhadores respeitam mais um líder corpulento do que um de estatura menor. Isto, não é respeito, é sem duvidas medo disfarçado.
Saiba que, medo não constrói instituições sólidas, apenas cria silêncios forçados.
A verdadeira grandeza não se mede em centímetros, mede-se em carácter, competência e postura ética.
Certa vez, numa instituição, um cliente enfurecido exigia falar com o gerente. O gerente era um homem de estatura física menor. Aproximou-se para resolver a situação, mas foi ignorado.
-Eu não falo contigo. Quero falar com o chefe!
O funcionário tentou explicar que era ele próprio o responsável máximo, mas foi interrompido. O cliente dirigiu-se então a um outro colaborador, de estatura maior, convencido de que ali estava a autoridade. Só depois percebeu o equívoco e a vergonha instalou-se.
Eis a lição.
Respeitemos as pessoas pelo que são, não pelo volume que ocupam no espaço. O superior pode ser baixo, alto, magro, robusto, com barriga ou sem ela. O que importa é a forma como conduz a organização, como decide, como lidera, como trata os outros.
A vida dá muitas voltas. Quem hoje é ignorado pela aparência pode amanhã ser quem decide o rumo da empresa ou do país.
Respeitemos, porque o verdadeiro estatuto não está no corpo, está na consciência.
Respeito não tem altura mínima nem peso obrigatório.
Autoridade não nasce na barriga, nasce na responsabilidade. Não cresce nos ombros, cresce na integridade; não se impõe pelo medo, conquista-se pela competência.
Se continuarmos a medir liderança pelo tamanho do corpo, estaremos a confessar a pequenez da nossa mentalidade.
O mundo já avançou. As empresas exigem visão. As instituições precisam de ética, a sociedade clama por carácter e, nós ainda presos à fita métrica?
É tempo de amadurecer.
Porque quem confunde dimensão corporal com dimensão moral revela apenas uma coisa: o problema nunca esteve no corpo do outro, esteve sempre na cabeça de quem observa.
É essa, sim, é a verdadeira estatura que precisa de crescer.
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