RACISMO FAZ MAIS UMA DAS SUAS VÍTIMAS?
O racismo é uma ferida antiga que insiste em não cicatrizar. As suas consequências são nefastas e o seu combate exige acção colectiva, caso contrário, os efeitos serão cada vez mais devastadores.
Recordo-me de que, há alguns anos, um colega da academia contou-me que sofria discriminação no próprio país, sobretudo quando entrava nos autocarros.
O motivo? A sua tonalidade de pele clara, fruto de ter avós portugueses. Em pleno século XXI, ainda se mede a pertença pela pigmentação.
-“Olha o latom no autocarro. Volta para o teu país!”
-“Afinal, também os latons andam de autocarro? Estão a passar mal, sofrem como nós!”
Frases como estas, repetidas com a banalidade de quem pede troco, foram corroendo o seu lado emocional. Dizia-me, com tristeza visível, que ponderava deixar o país assim que tivesse melhores condições. Estava cansado dos insultos. Situações como esta merecem repúdio inequívoco.
O problema, infelizmente, não é caso isolado. O futebol internacional tem sido palco recorrente de episódios vergonhosos. O internacional brasileiro Vinícius Júnior, jogador do Real Madrid, tem sido alvo de insultos racistas em vários estádios europeus. Não uma, não duas, mas várias vezes e, demasiadas vezes, as respostas institucionais foram tímidas, quase burocráticas, como se a dignidade humana pudesse esperar pelo VAR.
No jogo frente ao Sport Lisboa e Benfica, disputado no Estádio da Luz, a 17 de Fevereiro, o ambiente voltou a ficar tenso. O atleta brasileiro denunciou ter sido alvo de ofensas racistas, o que gerou revolta e solidariedade por parte dos seus colegas. A partida chegou a ser interrompida durante alguns minutos, após diálogo entre as equipas e a equipa de arbitragem. Vinícius mostrou-se visivelmente afectado e com razão. Não se trata apenas de futebol, trata-se de respeito.
Independentemente de desfechos disciplinares, importa reafirmar o princípio: actos de racismo devem ser condenados sem hesitação.
A Organização das Nações Unidas, através da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estabelece no artigo 1º que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”. Já o artigo 2º proíbe qualquer discriminação com base na raça, cor, sexo, língua, religião ou origem.
Recorde-se que, em Maio de 2023, países membros da ONU aprovaram medidas punitivas mais rigorosas para combater o racismo no futebol, incluindo a possibilidade de despromoção de clubes em caso de infracções graves.
Jogadores ou funcionários considerados culpados de abuso racista podem ser suspensos por cinco partidas, sanção já prevista para competições internacionais.
Do ponto de vista prático, tais medidas raramente são visíveis na sua aplicação. Será que nenhum caso foi comprovado? Ou estaremos perante um défice de coragem institucional?
Então, por que persistem estes comportamentos?
A resposta é desconfortável, mas evidente: falta responsabilização efectiva. Quando a sanção é leve, a reincidência é certa. Quando o silêncio institucional impera, a impunidade ganha palco e o palco amplifica tudo, inclusive o preconceito.
É fundamental que haja responsabilização rigorosa de todos os envolvidos em actos de racismo. Se os factos forem comprovados, as consequências devem ser proporcionais à gravidade do acto, tanto para indivíduos como para instituições. Defender cegamente sem apurar responsabilidades não é lealdade, é cumplicidade.
Que a ONU volte a exigir o cumprimento das medidas aprovadas em 2023 e de outros princípios que visam a salvaguarda da dignidade humana.
O caso de Vinícius é apenas a face visível de um problema estrutural. O racismo manifesta-se de forma silenciosa nas empresas, nas famílias, nas ruas e nas estruturas de poder. Há quem ainda se considere superior pela cor da pele, como se a melanina definisse carácter ou competência. Não define, jamais definirá. Não se esqueça!
O futuro exige mais do que comunicados, exige consciência, educação e coragem, coragem para denunciar, para corrigir e para transformar mentalidades, porque o racismo não é apenas um problema de quem sofre, é um teste moral para toda a sociedade.
Basta!
Unamos os braços para vencer este problema global.
Eu estou dentro. E você?





































