QUANDO O FUTURO TRANSFORMA A NOITE EM DIA

A noite cai sobre Luanda, mas, para muitas crianças, o dia insiste em não terminar. Enquanto os adultos recolhem o corpo cansado e fecham as portas da casa, surgem  nas ruas risos, gritos e passos pequenos que deviam estar a caminho da cama, não do asfalto. O futuro da nação anda acordado depois das 22h00, o que deve servir de alerta!

Imagem: Leal Mundunde

Não é a primeira vez que trago esta inquietação à praça pública. A questão parece simples, quase banal, mas os seus contornos são profundos e perigosos. 

Em várias zonas da capital, crianças brincam à noite como se o sol ainda estivesse no céu, muitas vezes sem supervisão, sem limites e, pior, sem consciência do risco que as rodeia. O que estamos, afinal, a construir quando deixamos o amanhã brincar até este período, muitas vezes em bairros sem iluminação pública?

Num artigo anterior, escrevi que a sociedade é o espelho das famílias. Hoje, reafirmo: o futuro também é.

Que destino espera um país onde crianças com menos de 10 anos permanecem nas ruas até às 22h00, 23h00 ou mais, a fazerem à noite o que deveria acontecer de dia?

Para os cristãos, a Bíblia é clara: há tempo para tudo. Então por que razão, nós, adultos, falhamos em ensinar o valor do tempo aos menores? Por que deixamos de proteger? Por que não orientamos sobre quando, onde e como brincar? Cada acção tem um efeito. Ignorar isto é brincar com o destino colectivo.

É verdade: a dinâmica familiar mudou. Muitos pais saem de casa às 5h00 e regressam de madrugada. As crianças ficam com irmãos mais velhos, empregadas ou outros familiares. A vida corre, o relógio não espera, mas nem a correria justifica a ausência total.

É imperioso reservar tempo para o diálogo, para ouvir, para perceber o que os filhos fazem quando não estamos, para orientar caminhos e corrigir desvios. Educar não é delegar por completo, é presença, mesmo quando o tempo é curto.

O mais alarmante é ouvir menores dizerem, com naturalidade desconcertante, que os pais sabem que estão na rua à noite e permitem. Algumas entram em casa à hora que quiserem. Muitas têm menos de 10 anos. Isto não é liberdade,  é abandono disfarçado e o preço é alto. Muito alto mesmo.

Os perigos estão à vista: consumo precoce de bebidas alcoólicas, contacto com drogas, envolvimento em grupos de marginais, iniciação sexual prematura. Depois, a sociedade espanta-se ao ver crianças com crianças ao colo, adolescentes sem rumo e bairros reféns de delinquência juvenil.

 Lembro-me de um caso recente: um adolescente que entrava em casa quando bem entendia. Os pais ignoraram os alertas. O “menino querido” afinal consumia drogas e liderava um grupo de marginais da sua idade. A verdade veio à tona pela mão da polícia. Meses depois, a história repetiu-se, até que um irmão foi brutalmente espancado, confundido com o seu “companheiro de barriga”, envolvido em actos ilícitos.

Vivemos também um tempo em que os casos de abuso sexual de menores aumentam, muitos no seio familiar, outros perpetrados por pessoas próximas.

Se o perigo existe dentro de casa, imagine-se fora dela, na madrugada, sem protecção. Aqui, a ironia dói: pedimos que Deus cuide, quando alguns pais desistiram de o fazer.

Há relatos de adolescentes envolvidas em prostituição e outros vícios. A informação circula, mas a acção tarda.

É verdade que cada filho é um filho, cada casa uma realidade. Ainda assim, princípios não são luxo, são necessidade. As crianças devem aprender que há tempo para estudar, para cumprir deveres, para ver televisão, ouvir música, brincar e, sobretudo, descansar. Liberdade sem limites transforma-se em libertinagem e a factura vem com juros sociais.

Ainda vamos a tempo. O quadro pode ser invertido. Os filhos de hoje serão os pais de amanhã. O trabalho é agora, a colheita é depois. Famílias desestruturadas produzem sociedades frágeis. Sejamos, então, os pais que gostaríamos que os nossos filhos fossem para os nossos netos. O futuro agradece e, desta vez, que o faça de olhos bem fechados, a dormir em casa.

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