A ÚLTIMA CRÓNICA PRODUZIDA NO LABORATÓRIO

Antes que o ano culmine e feche as suas pálpebras cansadas, decidi regressar ao meu laboratório. Não é um espaço de tubos de ensaio e batas brancas, mas esse lugar íntimo onde as palavras fervilham e entram em reacção.  

Nesta senda, produzo,  mais uma crónica, a última do ano, que se despede das suas várias irmãs gémeas, todas nascidas em 2025, cada uma com um lugar reservado no meu coração. Foram geradas com amor, lapidadas com inquietação e lançadas ao mundo como quem solta mensagens em garrafas no oceano do tempo.

As crónicas tornaram-se uma das minhas marcas no ano findo. Recebi reacções positivas, incentivos sinceros e aquele empurrão invisível que nos diz: continua e continuei. Sei que recordarei com entusiasmo cada texto produzido em 2025, porque cada um carregou um pedaço do país, da rua, do cidadão comum e das minhas próprias inquietações.

Guardo com nitidez a crónica do fumo no ar, essa filha incómoda que chamou a atenção para os problemas do fumo que intoxica o organismo de milhares de cidadãos, enquanto normalizamos o que nos mata lentamente. Lembro-me, também, da crónica da embriaguez, onde mergulhei nos excessos do líquido com lúpulo que entra no corpo e sai em desordem: pessoas que dançam sem música, jogam sem bola, desfilam sem plateia e pedem socorro sem perigo real.

Nesta última crónica, abracei também a menina que nasceu no azul e branco, onde se discutia a problemática dos salários e dos cargos, esse jogo de cadeiras onde poucos se sentam confortavelmente e muitos ficam de pé, à espera. Recordei-me da viagem do “assim mesmo”, esse percurso resignado que detalha o que temos vivido na nossa Kianda, onde o improviso virou regra e a mediocridade ganhou estatuto de moda. Pensei no piloto que acelerou tanto que quase partiu para a eternidade, lembrando-nos que viver depressa demais também mata. Todo o cuidado é pouco, sobretudo quando confundimos pressa com progresso.

A memória levou-me ainda aos golpes de África e aos sonhos que alimento para o meu continente,  sonhos teimosos, desses que não pedem licença para existir. Falei, também, dos indivíduos que não sabem aproveitar as oportunidades e, no fim, queixam-se da falta delas; quando surgem, encontram-nos desprevenidos, sem ferramentas, sem visão, sem coragem.

Nesta reflexão final, não poderia deixar de exaltar a beleza da resiliência, essa musculatura invisível que nos permite chegar ao pódio. Falei do amor que devemos cultivar para o progresso colectivo, numa caminhada que só faz sentido se for baseada na fraternidade, porque ninguém vence sozinho, mesmo quando sobe ao topo.

Recordei, ainda, o texto sobre o mal silencioso que habita em muitas instituições, essa doença que não faz barulho, mas corrói estruturas. Uma mensagem ficou clara e visível: “o futuro está a observar-te em silêncio”. Pensei no Caim do novo tempo, esse indivíduo que continua a espalhar estragos na sociedade; pensei nas viagens tardias que não curam ausências; pensei na força invisível de Kadú, que me levou a escrever sobre os heróis do meu tempo, aqueles que não aparecem nos manuais, mas seguram o mundo nos ombros.

Com tristeza, recordei a praça digital e os seus sacrifícios, onde a caça aos likes transformou o novo normal num espectáculo contínuo, entre aplausos vazios e assobios cúmplices de quem poderia travar a febre, mas prefere filmar.

Espero que em 2026 as chaves do amor façam um verdadeiro espectáculo, que o Evangelho do lucro abrande o passo, que surjam mais discursos que elevem a consciência colectiva. Que eu continue a honrar os sacrifícios do meu povo, numa viagem onde a gratidão deixe de ser discurso e passe a ser prática.

Que no novo ano construamos sonhos e abracemos a prosperidade com responsabilidade; que lutemos pelo bem comum; que vençamos com amor, fé e resiliência e que conquistemos o pódio sem trair os nossos valores.

O laboratório não estará encerrado, apenas muda de calendário.

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