JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS: O ARQUITETO DA PAZ QUE GOVERNOU ANGOLA POR 38 ANOS

José Eduardo dos Santos foi uma das figuras centrais da história política da Angola independente. Presidente da República durante 38 anos, entre 1979 e 2017, ficou particularmente associado ao processo que conduziu ao fim da guerra civil angolana, em 2002, razão pela qual passou a ser considerado por muitos como o “arquiteto da paz” em Angola.

Imagem: RNA

Nascido a 28 de Agosto de 1942, em Luanda, José Eduardo dos Santos iniciou ainda jovem a sua trajectória política no MPLA. Em 1958, filiou-se no movimento nacionalista e, após o início da luta armada contra o colonialismo português, em 1961, seguiu para o exílio no Congo, onde assumiu funções políticas e militares.

Formou-se em Engenharia de Petróleos na antiga União Soviética, em 1969, e recebeu posteriormente formação militar em telecomunicações. No MPLA, desempenhou várias funções até chegar ao Governo após a independência nacional, em 1975, quando assumiu o cargo de Ministro das Relações Exteriores.

A sua ascensão à Presidência ocorreu em 1979, após a morte do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto. José Eduardo dos Santos assumiu o comando de um país mergulhado numa guerra civil que se prolongaria por mais de duas décadas.

O caminho para a paz

Foi, sobretudo, na fase final do conflito que a figura de José Eduardo dos Santos ganhou uma dimensão particular na história da paz angolana.

Depois de anos de confrontao militar entre o Governo e a UNITA, o cenário começou a mudar na segunda metade da década de 1990. O desgaste provocado pela guerra, as transformações no contexto internacional e a necessidade de encontrar uma solução política abriram espaço para novas iniciativas de negociação.

O momento decisivo chegou em 2002. Após a morte de Jonas Savimbi, líder histórico da UNITA, em Fevereiro daquele ano, quando as condições para o fim do conflito alteraram-se profundamente.

O Governo de José Eduardo dos Santos optou pela via das negociações, que culminaram na assinatura, a 4 de Abril de 2002, do Memorando de Entendimento do Luena, entre o Governo e a UNITA.

O acordo marcou oficialmente o fim de décadas de guerra civil e abriu caminho para a desmobilização e reintegração dos combatentes, o retorno de milhões de deslocados e refugiados e o início de uma nova etapa de reconstrução nacional.

A paz permitiu que Angola deixasse para trás o ciclo do confronto militar e concentrasse recursos e esforços na reconstrução das estradas, pontes, escolas, hospitais, caminhos-de-ferro e outras infra-estruturas destruídas durante o conflito.

É neste contexto que José Eduardo dos Santos passou a ser referido como “arquiteto da paz”, sobretudo pelo papel desempenhado na condução política do Estado durante o processo que levou ao fim da guerra.

Paz e reconstrução

O período que se seguiu ao fim da guerra foi marcado por uma profunda transformação de Angola. O país registou forte crescimento económico, impulsionado principalmente pelo sector petrolífero, e lançou grandes programas de reconstrução nacional.

Foram anos de construção de infra-estruturas e de regresso gradual à normalidade, mas também de fortes críticas ao poder.

Durante o seu longo mandato, José Eduardo dos Santos foi acusado pela oposição e por organizações nacionais e internacionais de concentração de poder, limitações às liberdades políticas, corrupção e favorecimento de elites próximas do poder.

A sua governação deixou, por isso, um legado complexo e contraditório. A paz e a reconstrução constituem uma das principais marcas positivas atribuídas ao seu período presidencial, enquanto a governação prolongada e as acusações de corrupção permanecem entre os aspectos mais contestados do seu legado.

O fim de uma era

Depois de quase quatro décadas no poder, José Eduardo dos Santos deixou a Presidência em 2017, na sequência das eleições gerais, sendo sucedido por João Lourenço.

Afastado progressivamente da vida política, morreu em 8 de Julho de 2022, em Barcelona, Espanha, aos 79 anos, após um período prolongado de doença.

José Eduardo dos Santos entrou para a história como o Presidente que mais tempo governou Angola. Mas a sua figura está também ligada a um dos momentos mais decisivos da história recente do país: a transformação de uma guerra de décadas num processo de paz que permitiu aos angolanos iniciar a reconstrução de uma nação desastavada pelo conflito.