INVESTIMENTO PORTUGUÊS EM ANGOLA REGRIDE 9,7% E RELAÇÃO FINANCEIRA SOFRE INVERSÃO HISTÓRICA

Dados do Banco de Portugal revelam que o investimento português se fixou em 2.410,4 milhões de euros, menos 9,7% em relação ao ano anterior, enquanto o investimento angolano em Portugal atingiu um nível histórico, reforçando a posição de Angola como um dos principais investidores estrangeiros na economia portuguesa.

Imagem: RTP Madeira

A redução do investimento português representa mais do que uma simples variação estatística. O desempenho confirma uma tendência de desaceleração iniciada nos últimos anos e coloca o volume de investimento abaixo dos níveis registados em 2021, período em que o relacionamento financeiro entre Lisboa e Luanda apresentava um quadro substancialmente diferente.

Segundo os dados do Banco de Portugal, divulgados pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e citados pela Lusa, o saldo do investimento directo sofreu uma transformação expressiva.

Em 2021, Portugal apresentava um saldo positivo de 725 milhões de euros relativamente a Angola. Quatro anos depois, esse cenário foi completamente invertido, passando para um saldo negativo de 2.115,3 milhões de euros. Em 2024, esse indicador já se situava nos 331,2 milhões de euros negativos, demonstrando que a deterioração da posição portuguesa se foi acentuando de forma progressiva.

Os números revelam igualmente uma alteração no peso relativo dos dois países enquanto investidores. Entre 2021 e 2025, Angola subiu do 14.º para o 9.º lugar entre os 62 países considerados pelo Banco de Portugal como investidores em território português. Em sentido contrário, Portugal perdeu protagonismo entre os destinos preferenciais do investimento directo português no exterior, descendo do terceiro para o sétimo lugar.

Enquanto o investimento português evidencia sinais de retracção, o capital angolano continua a consolidar-se em Portugal. No final de 2025, o stock de investimento directo de Angola naquele país ascendia a 4.525,7 milhões de euros, traduzindo um crescimento de 50,9% face ao ano anterior e um aumento acumulado de 152% relativamente a 2021.

Especialistas entendem que esta evolução resulta de uma conjugação de factores, entre os quais a reestruturação das estratégias de internacionalização das empresas portuguesas, o ambiente económico em Angola, bem como a crescente diversificação dos investimentos angolanos em sectores estratégicos da economia portuguesa.

Apesar da redução do investimento português, Angola continua a representar um mercado de elevada importância para as empresas lusas, sobretudo nos sectores da banca, construção civil, energia, telecomunicações, indústria e prestação de serviços. Por outro lado, o crescimento do investimento angolano em Portugal demonstra uma maior capacidade de internacionalização do empresariado nacional e reforça a interdependência económica entre os dois países.

Os indicadores agora conhecidos deixam claro que as relações de investimento entre Angola e Portugal atravessam uma fase de reconfiguração, marcada por uma maior presença do capital angolano na economia portuguesa e por um ritmo mais moderado das aplicações portuguesas em território angolano.

O comportamento dos mercados nos próximos anos será determinante para perceber se esta tendência representa uma alteração estrutural ou apenas um ajustamento conjuntural nas relações económicas entre os dois Estados.