DAS IGREJAS AOS CHATBOTS: COMO A IA ESTÁ SE FUNDINDO COM A RELIGIÃO
Desde a redação de sermões até à simulação de conversas com Jesus, líderes religiosos e fiéis estão experimentando a inteligência artificial, embora não sem controvérsia.
Em 2024, Justin Lester, pastor da Friendship Baptist Church em Vallejo, Califórnia, construiu um GPT personalizado para sua igreja que usa seus sermões para desenvolver materiais para pequenos grupos e permite que outros líderes da igreja criem lições com base nesses sermões.
Lester não tem receio de implantar IA dessa forma. Como ele vê, usar essas ferramentas é importante para o crescimento espiritual, discipulado e desenvolvimento da comunidade.
"Jesus disse que faríamos coisas maiores", disse ele. "E eu acho que (IA) faz parte do 'maior'." A IA está silenciosamente remodelando a forma como as pessoas trabalham, vivem e amam. Então, talvez fosse apenas uma questão de tempo até que ela se infiltrasse também em sua forma de adorar.
Mas, à medida que fiéis e líderes religiosos começam a integrar essa tecnologia em suas vidas religiosas, desde usá-la para simular conversas com Jesus até escrever sermões, mas, alguns acadêmicos e líderes religiosos alertam sobre os riscos e os danos potenciais que ela pode causar.
Ateu convicto, Siraj Raval disse que foi a solidão e o medo existencial que o levaram a encontrar o “TalkToHim”, um chatbot com inteligência artificial que simula conversas com Jesus.
“Tive uma experiência em que me senti ouvido por uma presença divina”, disse ele sobre o aplicativo, que usou para buscar respostas para suas perguntas espirituais, como conviver com a culpa, perdoar quando parece impossível e agir moralmente.
“Foi melhor do que um livro didático”, disse Raval, que frequenta regularmente uma igreja cristã não denominacional em Idaho, sobre o aplicativo. “Foi melhor do que ler a Bíblia.”
Incorporar IA dessa forma não está acontecendo apenas no nível pessoal. No ano passado, a Capela de São Pedro, na Suíça, instalou um avatar de Jesus feito por IA em seu confessionário como parte de uma instalação de arte experimental com uma universidade local. O que mais surpreendeu Marco Schmid, teólogo da igreja, foi a seriedade com que as pessoas encararam a experiência, com algumas até agradecendo ao chatbot.
"Você diz para o seu computador quando termina: 'Ah, obrigado, computador?' Não", diz Schmid. "Mas você vê o quanto as pessoas personalizaram e humanizaram o sistema porque ele era muito bom."
O rabino Josh Fixler, da Congregação Emanu El em Houston, foi um dos primeiros a adoptar o ChatGpt. Durante as Grandes Festas Judaicas de 2023, o rabino de 41 anos chocou seus congregados ao reproduzir uma gravação de si mesmo discutindo o impacto da IA na humanidade, um sermão que ele revelou mais tarde ter sido gerado por IA.
Mas, ao contrário de outros usuários da tecnologia, ele não ficou totalmente impressionado com o resultado. "Saí daquele sermão com sérias preocupações tanto sobre a ética da tecnologia quanto sobre o foco excessivo nela", disse ele sobre seu experimento com IA, que não replicou desde então. O principal motivo: algumas das afirmações do chatbot simplesmente não eram verdadeiras.
"[O chatbot] citou um grande estudioso judeu chamado Maimônides, mas, pelo que pude perceber, inventou essa citação", falou Fixler.
A tecnologia há muito impulsiona a inovação religiosa, desde a ascensão do tele-evangelismo na década de 1960 até a ampla adopção de ferramentas de comunicação online, como o Zoom, por locais de culto durante a pandemia de COVID-19. Mas, embora essas ferramentas tenham expandido principalmente o alcance das práticas de culto existentes, a IA parece estar remodelando a forma como as pessoas aprendem, interpretam e até mesmo vivenciam sua fé.




































