NA FILA DO BANCO A CONVERSA GIRA EM TORNO DO “OUVIR DIZER”

Enquanto esperávamos pelo início do atendimento, na fila do banco falava-se de tudo um pouco: viagens ao passado, leituras apressadas do presente e perspectivas para o ano que carrega o seis às costas, como quem leva uma mochila cheia de expectativas.

Entre os vários assuntos, um prendeu-me a atenção como quem segura a senha e não quer perder a vez: o famoso ouvir dizer e as suas consequências silenciosas.

-Evite acreditar em tudo o que ouve!

-Nem tudo o que se ouve é verdade!

Eram estes alguns dos conselhos que circulavam no diálogo de três jovens. Não sei se eram amigos ou familiares, mas a conversa tinha bom sumo natural, semelhante ao que é feito na Terra da Porcelana. A minha atenção ficou ali. Cheguei a ensaiar mentalmente a minha intervenção, pronto para debitar a minha opinião, quando, de repente, o funcionário do banco anunciou o início do atendimento. Respirei fundo. Fiquei com a palavra presa na garganta e a reflexão no bolso.

A partir dali, recordei-me das consequências do ouvir dizer. Muitos, em vez de pesquisarem, de irem ao fundo dos factos, limitam-se a comentários rápidos, muitas vezes sem fundamento, baseados em relatos de terceiros que juram ter testemunhado o acontecimento. É a era do “disseram-me que…”.

Há quem tenha verdadeiro talento para inventar factos e apresentá-los como realidade absoluta, ao ponto de enganar os mais distraídos ou aqueles que acreditam em tudo o que lhes chega aos ouvidos. Este fenómeno atravessa sectores, classes e contextos-da família ao emprego, da rua às redes sociais.

Muitos relacionamentos já ruíram ou entraram em crise profunda, porque um dos cônjuges decidiu acreditar no que ouviu de terceiros, sem, no mínimo, confirmar ao detalhe o que realmente aconteceu. Reputações foram manchadas, histórias foram distorcidas, vidas foram afectadas.

-Olha, o Miguel está a trair-te. Vi-o hoje abraçado a uma jovem naquele bar.

No final, o tal Miguel nem sequer frequenta bares. A pessoa em causa era outra, confundida por ter características semelhantes, mas o estrago emocional já estava feito.

-O João então é boss. Comprou um BMW e agora vive mesmo bem. Já nem dá confiança às pessoas.

Afinal, o João apenas conduzia a viatura do chefe. Ainda assim, a narrativa correu, ganhou pernas e tornou-se verdade na boca de muitos. Criou-se um “boss” que não é,  e um sucesso que nunca existiu.

Aqui mora o perigo do ouvir dizer: transformar boatos em sentenças e opiniões em factos consumados.

Antes de acreditar, confirme. Antes de partilhar, investigue. Antes de julgar, escute as duas versões. Nem toda a verdade anda à solta na primeira conversa, nem todo o rumor merece palco.

Num tempo em que a informação corre mais depressa do que o dinheiro nos bancos, a responsabilidade começa no ouvido e termina na consciência. Quem escuta tudo sem filtro acaba refém da mentira alheia e no final, o silêncio de quem verifica vale sempre mais do que o barulho de quem apenas ouviu dizer, porque maturidade também é saber esperar, não só na fila do banco, mas na fila da verdade.

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