SEM PROFESSORES NÃO HÁ FUTURO: O DISCURSO DE UM ETERNO ESTUDANTE

Foi na calada da noite,  essa hora em que o silêncio também ensina, que decidi redigir este discurso. Um acto de gratidão, mas também de consciência. Dirige-se aos professores: não apenas aos que passaram, passam ou ainda passarão pela minha vida académica, mas a todos os que, mundo fora, se dedicam à formação de milhões de cidadãos e que, infelizmente, nem sempre recebem a honra proporcional ao peso da sua missão.

Imagem: DR Ponto de Situação

Distintos professores, que agora têm diante de si as palavras deste vosso eterno estudante, dirijo-me a vós com elevada consideração, respeito e reconhecimento. Reconhecimento não apenas pela transmissão do conhecimento científico, mas, sobretudo, pela formação do carácter, pela lapidação de valores e pela construção silenciosa do homem enquanto ser social.

Hoje, com a humildade de quem aprende todos os dias, reconheço que somos, em grande medida, o reflexo do que nos foi ensinado. Houve mestres que souberam aproveitar cada minuto em sala de aula, nos corredores das escolas e nos intervalos improvisados para semear ideias, despertar consciências e apontar caminhos que hoje nos são úteis. Outros estudantes  e aqui falo com franqueza jornalística, não souberam aproveitar esse tempo. Muitos carregam, hoje, o peso tardio do arrependimento, repetindo a frase mais cara da ignorância involuntária: “se eu soubesse…”. Mas a verdade é crua e não pede licença: quase sempre, o “se” chega tarde.

Ainda assim, nesta hora, deixo-vos um apelo claro e sem rodeios: não desistam. Mantenham a garra, a determinação e a coragem de levar o conhecimento às comunidades, mesmo quando as condições de trabalho estão longe do ideal. Sabemos e os dados confirmam, que em muitos países africanos, um único professor chega a leccionar para dezenas de alunos numa só sala, com recursos escassos e valorização profissional insuficiente. Ainda assim, a educação resiste, resiste porque os professores insistem.

Vivemos tempos profundamente diferentes dos de há 20 ou 30 anos. Estamos na era das novas tecnologias, da hiperconectividade e da geração Z, inquieta, veloz, questionadora. Uma geração que não aceita respostas prontas e desafia o professor a ser, mais do que simples transmissor de conteúdos, um verdadeiro mediador do pensamento crítico. Os desafios são maiores, sim, mas também maiores são as oportunidades de reinventar o acto de ensinar, educar para o digital e formar consciências num mundo saturado de informação, mas carente de sabedoria.

Uma sociedade com professores qualificados, condições de trabalho dignas e estudantes comprometidos constrói, inevitavelmente, quadros capazes de liderar organizações, governar nações e educar as próximas gerações. Não há atalhos aqui. A história é clara e implacável: nenhum país se desenvolveu sem investir seriamente na educação.

Na nossa caminhada, passaram inúmeros mestres que marcaram as nossas vidas e aos quais nem sempre soubemos agradecer à altura. Fica, por isso, a minha gratidão colectiva.

No essencial, somos o resultado do que nos foi transmitido. Uns souberam acolher e aplicar esses ensinamentos; outros, infelizmente, desviaram-se, mas os que compreendem o verdadeiro valor do estudo continuam a aprender mesmo depois da academia: lêem, investigam, participam em formações, reinventam-se, porque o mundo é dinâmico e a estagnação, hoje, é uma forma moderna de exclusão.

Obrigado por existirem nas nossas vidas.

Neste dia, que considero simbólico e histórico, deixo um apelo directo aos mestres do ensino: bravura, força, coragem, foco, persistência e disciplina. Insistam neste percurso nobre com amor e dignidade. É preciso dizê-lo com frontalidade e sentido de responsabilidade: há docentes que, infelizmente, não exercem cabalmente a sua missão e se deixam desviar por caminhos que não abonam a sua postura. Isso não é acusação gratuita, é um alerta ético. A educação também exige carácter.

Estimados professores, o maior prémio que recebem não cabe num envelope nem num diploma. O maior prémio é ver quadros formados por vós a brilharem nos mais diversos sectores da sociedade. Sem professores, não há médicos competentes, jornalistas responsáveis, engenheiros visionários, nem líderes conscientes. Sois peças fundamentais, sois lâmpada em tempos de escuridão, sois árvore que dá muitos frutos.

Sigamos os bons exemplos, sejamos quadros comprometidos e que o vosso valor, hoje e sempre, seja reconhecido, não apenas em discursos, mas em políticas públicas, respeito social e dignidade profissional.

Obrigado.
Obrigado.
Obrigado.

É o mínimo que posso deixar a todos os professores.

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