QUECA CANZONJI DENUNCIA FALHAS NA PREPARAÇÃO DO INÍCIO DO ANO LECTIVO
A estreia do espaço ‘Depois de Sete Dias’, colocou em destaque os desafios da educação em Angola sob o tema “Abertura do ano lectivo: desafios e caminhos para uma educação de qualidade”, aonde o presidente da Associação Nacional “A Voz do Professor”, Queca Canzonji, apontou falhas na preparação do novo ano lectivo, sobretudo no ensino privado, e defendeu maior valorização dos professores como condição essencial para garantir a qualidade do ensino.
“Máquinas afiadas e preparadas para mais um ano lectivo?” foi a pergunta de partida da entrevista. Para Queca Canzonji, a expectativa era de que o sistema educativo estivesse preparado para enfrentar mais um ano lectivo, mas a realidade acabou por revelar vários constrangimentos.
Segundo o responsável, houve falta de alinhamento entre o Ministério da Educação e parte do sector privado, situação que terá contribuído para que várias instituições privadas não iniciassem as aulas no período previsto.
O presidente da associação criticou igualmente a fraca mobilização da classe docente. De acordo com Queca Canzonji, muitos professores permaneceram afastados das instituições durante cerca de dois meses, enquanto outros tiveram os contratos suspensos nos meses de Junho, Julho e Agosto, havendo ainda casos de profissionais que não receberam atempadamente os seus salários.
Para o responsável, muitas escolas poderiam ter convocado os professores durante a segunda quinzena de Agosto para preparar o novo ano lectivo, incluindo a realização das jornadas pedagógicas. No entanto, segundo afirmou, muitos docentes acabaram por não participar nas actividades de preparação.
Contratos curtos e instabilidade docente
Outro ponto levantado durante a entrevista foi a situação contratual dos professores do ensino privado. Queca Canzonji explicou que algumas instituições celebram contratos com duração de três a dez meses, dispensando os docentes no final do período lectivo para evitar encargos durante os meses em que as actividades lectivas são reduzidas.
Na sua perspectiva, esta prática contribui para a instabilidade da classe docente e dificulta a construção de um projecto educativo consistente.
“Quem garante o futuro da qualidade das nossas crianças é o professor. Se o professor não é valorizado, infelizmente, a escola não consegue avançar com os seus projectos”.
O presidente alertou ainda que algumas escolas têm sido obrigadas a substituir professores com frequência, chegando a trocar profissionais de um mês para o outro ou de trimestre para trimestre.
Para Queca Canzonji, não é possível construir qualidade de ensino com constante rotatividade dos professores, porque a estabilidade do corpo docente é fundamental para o alinhamento institucional e pedagógico.
‘‘Existe qualidade de ensino em Angola?’’
Questionado sobre a existência de qualidade no sistema de ensino angolano, o responsável defendeu que a análise não deve ser feita com base numa única escola ou grupo de instituições.
Reconhecendo os esforços realizados por algumas escolas, considerou, contudo, que ainda é necessário valorizar mais o professor, melhorar as políticas educativas e aprofundar as reformas no sector.
Mais escolas, mas ainda poucas vagas
O acesso à educação também esteve entre os principais desafios apresentados. Embora reconheça o esforço de algumas instituições privadas na construção de escolas em zonas onde o Estado ainda não consegue chegar, Queca Canzonji considera que a oferta existente continua insuficiente face à procura.
O responsável chamou igualmente a atenção para o elevado custo das propinas no ensino privado, que acaba por limitar o acesso de muitas famílias.
Defendeu, por isso, uma intervenção mais efectiva das autoridades para aumentar a capacidade de resposta do sistema educativo.
Permanência do aluno e merenda escolar
Outro desafio apontado foi a permanência dos alunos na escola. Para o presidente, estudar deve ser encarado simultaneamente como um direito e um dever, sendo necessário criar condições para que as crianças permaneçam no sistema de ensino.
Neste sentido, defendeu a implementação e o reforço da merenda escolar como uma das medidas capazes de incentivar a frequência e reduzir os factores que afastam as crianças das salas de aula.
Um apelo pela valorização do professor
No final, o presidente da Associação Nacional “A Voz do Professor” apelou às direcções das instituições de ensino para que encontrem melhores plataformas de entendimento com os docentes.
A mensagem deixada é clara: ‘‘investir no professor não significa apenas beneficiar quem trabalha numa escola, mas proteger o futuro de milhares de crianças e jovens’’.
Para Queca Canzonji, a construção de uma educação de qualidade em Angola passa necessariamente por professores valorizados, estáveis, motivados e envolvidos na construção do projecto educativo das escolas.




































