INSEGURANÇA INSTALA TENSÃO NAS PARAGENS DA ESTALAGEM E DOS MUTILADOS
A onda de assaltos e actos de vandalismo registados nas paragens da Estalagem e dos Mutilados, em Luanda, está a mergulhar passageiros e operadores de transporte num clima de medo constante, sobretudo nas primeiras horas da manhã e ao cair da noite, altura em que a presença policial é considerada insuficiente pelos utentes que clamam por medidas urgentes para travar a escalada de insegurança.
“Controla… muitos não nossos. Cuidado, suspeita na área.”
É este o refrão diário que ecoa nas paragens da Estalagem e dos Mutilados, ao longo da Estrada Nacional 230. Para quem depende daqueles pontos para chegar ao serviço ou regressar a casa, o cenário tornou-se um verdadeiro campo minado urbano.
Segundo testemunhas ouvidas pelo Ponto de Situação, registam-se mais de oito roubos por dia nestes locais. Telefones, carteiras, perucas e outros bens valiosos desaparecem em segundos, no meio da multidão que disputa um lugar no táxi.
O jornal recolheu depoimentos de transeuntes, passageiros e cobradores de táxi os chamados “gerentes”, que são unânimes, é urgente a instalação de uma esquadra móvel para travar a onda de criminalidade.
Joana Guimarães, vendeira de 45 anos, não esconde a preocupação.
“Muitos são jovens que se fazem passar por lotadores, mas são os mesmos que roubam. A Polícia deve colocar aqui uma esquadra móvel”, defende.
Já Dona Jája, que vende há mais de 23 anos no mercado da Estalagem, aponta o dedo aos fiscais. Segundo a comerciante, estes concentram-se mais em enxotar as zungueiras do que em colaborar com a Polícia Nacional na manutenção da ordem nas paragens. “Os roubos são quase todos os dias e muitos já viram situações dessas e nada fizeram”, denuncia.
Loide, de 27 anos, vende biscoitos na paragem da Estalagem há cinco anos e também já foi vítima. “Roubaram-me o telefone enquanto vendia os bolinhos. Depois das 18 horas é muito complicado. Aparecem jovens a trabalhar como lotadores, mas afinal são marginais. Muitos passageiros são roubados no momento em que todos tentam subir ao táxi ao mesmo tempo, até mesmo dentro dos táxis, eles roubam pela janelas”, relata.
O mesmo cenário repete-se na paragem dos Mutilados. Um grupo de jovens actua sobretudo à noite, muitos trajando uniformes de lotadores. A escassez de táxis cria o ambiente perfeito para a actuação dos chamados “amigos do alheio”, que aproveitam a desordem para agir.
Hortência Mara, estudante universitária, confirma o clima de medo. “À noite é difícil. Sempre que vou à universidade há relatos de roubos de telefone, peruca ou carteira. As maiores vítimas são as mulheres.” Conta ainda que a colega Esperança foi assaltada no ano passado. “Levaram-lhe a carteira com valores monetários, mas deixaram o telefone porque estava no bolso das calças.”
“Vivemos minutos de tensão, ansiedade e insegurança. Pedimos à nossa Polícia que instale aqui uma esquadra móvel. A situação é preocupante”, reforça.
Entre proteger os pertences e conseguir um lugar no táxi, trava-se uma luta diária. Dona Paula descreve o ambiente como exaustivo: “A pessoa corre de um lado para o outro para conseguir lugar. Quando há multidão, eles aproveitam-se. Para alertar os outros passageiros gritamos ‘muitos não nossos, controlem as perucas’. Só assim conseguimos algum alívio.”
Leandro Evaristo, taxista da rota Vila Ponte Amarela/Zango 1, entende que a solução passa por maior coordenação institucional. Defende que a Polícia Nacional de Angola e a Associação dos Taxistas devem intensificar esforços conjuntos. “Podem colocar esquadras móveis nas paragens. Além de fiscalizar o funcionamento dos táxis, é preciso ajudar na ordem pública. Também a associação deve criar supervisores. Nem todos os lotadores são meliantes”, sublinha.
Num contexto em que a mobilidade urbana é vital para a dinâmica económica de Luanda, as paragens transformaram-se em pontos críticos de insegurança. A cidade que não dorme precisa, urgentemente, de respostas que devolvam tranquilidade a quem apenas quer trabalhar, estudar e regressar a casa em paz.
Porque, no fim do dia, ninguém devia ter de escolher entre apanhar um táxi e perder a carteira.





































